Vinha a noite a fugir pelas paragens cerulas
Pairar sobre a cidade — esplendida Stambul!
O estellifero manto era um collar de pérolas
Espalhadas por Deus pelo infinito azul!

O Nordeste bramia, e nos desertos humidos
Oscillava medrosa a face do luar —
E em vagalhões azues estrugidores, tumidos
Nos peitos do areai vinha bater o mar !

E aos sons do mar — e aos sons da ventania rabida
Aos poucos vi rasgar-se o nebuloso véo —
E um vulto sobre a terra infame, vil, e tabida
Surge occupando enorme o circulo do céo !

No seu braço despido e musculoso e livido
Sustentava o colosso immenso d'uma cruz !
O lábio se entreabrio!... o olhar tremia vivido !...
Um despede trovões — outro despede luz !

Serpeia-lhe na espadua a cabelleira flaccida
Rolando pelo espaço em fulgidos anneis !...
A fronte ergueu ! do mar recua a onda plácida
E a terra muda, humilde, estende-se a seus pés !

E assim bradou então : « Da natureza flórida
Murmúrios, luzes, sons... o author negaes atheus? !
E se ella inda amanhã ha de acordar tão rórida —
Oh ! acabae com ella Omnipotente Deus!

« Assassinos da Fé ! excommungados scepticos,
Apóstatas do bem ! — qual é a vossa moral ? !
Vós sois da humanidade os sórdidos morpheticos
Quando accendeis do vicio o turbido fanal !

« Da religião christã, a verdadeira, a única,
Estúpidos fazeis muitas religiões !
Eu hei de espedaçar a sanguinária túnica
Com que ao grêmio da Fé roubaes as gerações !

« Abris em cada templo um pérfido prostíbulo,
E á victima que tomba o braço recusaes ? !
E' fábula — a vossa alma, e o coração — thuribulo,
Do fumo embriagador dos gosos sensuaes !

« E mostraes do sarcasmo as gargalhadas borridas !...
Onde é vossa garganta — oh! fúrias do escarcéo ? !
Oh ! terra aonde estão tuas entranhas torridas ? !
Vosso fogo onde está — relâmpagos do céo ? !

« A Egreja também tem os azorragues sólidos,
Que a raiva dos leões do vandalismo tem —
Mas co'a palavra só ha de salvar — stolidos —
Das vossas garras vis as gerações que vêm !

« A crença amortecei da insensatez no cumulo !
Erguei a injuria a Deus, sarcophagos á Fé !
Porque a Fé no porvir resurgirá do túmulo
E vel^heis então esplendida de pé !...

« Oh ! leões ! Oh ! leões, que trovejaes, asperrimos.
O facho da verdade espalhará clarões !
E a razão ! a razão ha de bradar : Miserrimos !
Miserrimos que sois, coléricos leões !

« A punição não tarda — Oh ! crentes esperemol-a !
Da vida eterna o sol ha de fulgir emfim !
E tu — Oh ! legião de malfeitores, tremula —
Do olvido irás rolar no barathro sem fim !

« Oh ! natureza rica ! esplendida chrysulida !
Depois que o povo em Fé passar o teu Jordão,
Abysma-te no cahos donde sahiste esquálida !
Fulmina este universo — Oh ! Deus da Creação !

E súbito sumio-se o vulto horribilissimo —.
E o céo ermo tornou-se e límpido outra vez !
E soluçou o mar num soluçar tristíssimo,
Como inda ouvindo o som d'aquella voz talvez !