Lembra-me outr'ora, em madrugada linda
Envolta ainda pela nevoa fria,
Tu me apontavas no horisonte á medo
Co'o roseo dedo o despontar do dia.

Resavas terna ao pôr do sol no monte,
Pendida a fronte no sopé da Cruz,
E de teus lábios, no resar, frementes
Vinham torrentes d'inspirada luz !

Sentada eu vi-te tanta vez absorta
Da casa á porta, no relvoso banco...
Pensando assim no meu passado bello,
Que pesadelo do meu craneo arranco !

Entre as cortinas do florido berço,
Que mundo immerso no porvir sonhei !
Que sonho d'ouro ! que contraste enorme
Co'o mundo informe que depois pisei !

Como da veiga adormecida, escura,
A aurora pura a solidão povôa,
Quando um gorgeio musical, no ninho,
O passarinho no arrebol entôá;

Eu sinto, oh anjo, que nos ermos d'alma
Rebenta a palma das sonhadas flores !
Traz-me d'outr'ora a virginal lembrança
Fé, esperança, mocidade, amores !...