What iron sloic can suppress lhe lear !
(CHATTERTON.)

Tanta illusão sorria-te na fronte !
Vasto, rosado, esplendido horisonte
Cercava a tua vida !
Mas foi curto o fulgor; da morte hedionda
Tu foste arrebatado pela onda
Tumida, enfebrecida!

Alem... do arminho tepido da infância
Viste um castello fulgido, em distancia,
De fadas vaporosas ;
Um castello de abobadas ingentes,
Cheio de luz e flores rescendentes
E musicas ruidosas...

Era o mundo fallaz, que te attrahia,
Dentro todo — sarcasmos, ironia
E perjúrio e mentira...
Incauto penetraste — n'um momento
Tornou-se horrido sonho lutulento
Teu sonho de saphira !

Eras moço; sonhaste a liberdade
Na avidez de brilhar, que ha n'essa idade
Vasta, ridente, florea; 
Sonhaste-te, nas praças populares,
Erguido pelas turbas seculares
No pedestal da gloria !

A gloria ! Tanta fronte corajosa
N'essa escada, febril, vertiginosa,
Pára, tropeça e tomba
No abysmo escancarado. E tu tentaste
Ao pinearo subir, e escorregaste
Cahindo na hecatomba !

E descreste depois — eras tão moço !
Teu precoce descrer foi o destroço,
Que da lucta restou...
Viste em mina o templo, que, gigante,
Fabricaste — esqueleto d'elephante,
Que o tempo descarnou ! —

Da mocidade no folguedo immenso,
Quiçá pensaste como ás vezes penso,
Que a vida não tem fim !
Cedo sahiste do festim do mundo
Para augmentar, por sob um solo immundo,
Dos mortos o festim !

Teu craneo está despido de cabellos !
Seccaram-se teus olhos, que eram bellos !...
Em ti se nutre o verme...
D'esse teu corpo, que a mortalha tapa,
Formigam larvas sob a podre capa
Da livida epiderme !

Foste pó, serás pó ! disse-te a morte,
Lançando-te da inércia a algema forte
No ergastulo do pó ;
Tu'alma volta á luz onde é gerada,
Cobrindo o luto branco d'uma ossada
Fica o teu corpo só !

Vida — oh ! vida ! onde o fogo está, que ateias
No cérebro dos moços, se de idéas
Este cérebro é nú ?!
Razão ! como é medonha a tua calma !
Sopro divino ! espirito ! alma— oh alma !
Onde habitavas tu ? !

Incomprehensiveisleis ! alto mysterio !
E' no fundo da vida o cemitério
Somente o que se vê !
O pensamento nada mais alcança...
E á tibidez do túmulo a esperança
Acompanha quem crê!

Ao telescópio da razão me cinjo —
E em vão, meu Deus — eu nem sequer te attinjo
Foco deslumbrador!
Tudo o que me rodeia apenas mostra
Miséria, lama... e a duvida me prostra
De terror ! de pavor !

De grande irradiação minh'alma é centro
E em vão olho p'ra fora, em vão p'ra dentro
De mim — não vejo a luz !
Oh ! mas se a Cruz crença symbolisa
E se de crença o espirito precisa
Vou abraçar-me á Cruz !

Meu Deus ! eu nada vejo se não creio !
Dos dedalos da duvida no meio,
Cego, me perderei!
Do scepticismo contta a vaga immensa
Inabalável, sempre a mesma crença
Tive, tenho e terei!

Oh ! a morte é que é luz, o berço é treva,
Quem mais se abaixa, tanto mais se eleva,
Desce quem mais se ergueu !
Alma, que da matéria se desloca,
A verdade contempla e n'ella toca...
Feliz do que morreu !...

Es mais feliz portanto. Se tão cedo
A morte te ferio, — atro segredo !
Tetrica divindade ! —
Também cedo, da tenebra do mundo,
Voaste incólume ao clarão profundo
Do sol da eternidade !

Transpuzeste da vida a alta montanha...
Na mesma luz em que teu ser se banha
Meu ser se banhará —
E como ordena a eterna prophecia,
A' trombeta final ver-te-hei um dia
No val de Josaphat!

1877