(A JOÃO MOTTA)

Sulut, doux crépuscule, ô suave lumière !
(GCETHK.)

E tarde ! zunidora a ventania açoita
As torres da Matriz !
O brilho extremo o sol dos montes nas alturas
Espalha, e as nuvens franja a se espraiarem puras
De nitido matiz !

Despenha a catadupa a cabelleira basta
De espuma e de crystal!
O mar bramindo em fúria affronta esses penedos —
Nos cálices da veiga a brisa diz segredos
Occultos ao mortal!

Escuta a jurity que arrulha gemedora
Nas moitas dos bambus !
Escuta a voz do grillo ! e que melancolia,
Que amor, meu Deus, nos traz o som d'Ave-Maria,
Que o coração traduz !

E' tarde ! volta ao lar cantarolando ao longe
Saudoso o pescador!
E' tarde ! e que saudade eu sinto n'estas horas !
Em vago estremecer, minh'alma porque choras?
Acaso tens amor ? !

II

Morre o dia ! minh'alma vê, contempla
Esse sol tão ardente a se apagar !
Como envolvel-o vêm opacas nuvens
Ao véo crepuscular!

Quem sabe se amanhã também meu corpo
Irá da morte nos umbraes tombar !
E se ouvirei a brisa do cypreste
Nas ramas palpitar!

Oh ! amanhã quem sabe ! ella chorosa
A fria fronte me virá beijar —
Mas — ai! nem poderei sentir seu beijo —
Sentil-a soluçar !

III

Que nuvens doiradas no céo todo azul,
Formando palácios e aéreos castellos
De cândidas fadas e mundos de anhelos,
Lá correm, lá voam p'r'as bandas do Sul!
Com laivos de sangue na face incendida
Nas agoas mergulha-se o rubido sol!
Minh'alma vagueia, nas scismas perdida,
No bello arrebol! 

Crepúsculo doce ! minhalma no mar
Ao longe, que vultos tão brancos divisa ? !
São velas trazidas nas azas da brisa ? !
São fadas ? são cysnes que eu vejo alvejar ? !
Thurybulo acceso de quentes aromas
Se fôrma das flores no vai, no vergel,
E a lua eu diviso do bosque entre as comas,
N'um gazeo docel!

Já desce das noites o lobrego véo,
E as preces e os rogos, que cahem dos lábios,
No templo, dos pobres, dos ricos, dos sábios,
Lá voam, lá sobem iguaes para o céo !
Luar merencorio se estende nos ares —
O sylpho adormece no calix da flor ! —
Minh'alma que sonhas, teus santos sonhares
Levanta ao Senhor !

1877.