Gonçalo Pires possui uma cama,
Em nossa vila não tem mais nenhuma,
Gonçalo Pires se dá um estadão,
Só ele na terra dorme gostoso
Em traste bonito de estimação.

Delém, dem! dem"... O sr. Ouvidor,
Representante de Felipe IV,
Já vem subindo pelo Cubatão.
O dr. Antonio Rebelo Coelho
Vem nesta vila fazer correição.

Delém! Dem! Dem!... São Paulo nos acuda!
Se agita a Municipalidade,
Ouvidor-geral não dorme no chão!
Gonçalo Pires não quer emprestar
Cama cobertor lençol e colchão.

Mas os vereadores são bons paulistas
E Francisco Jorge, o procurador,
Recebe da Câmara autorização:
Trará a cama de Gonçalo Pires,
Ele que deixe de mangação!

Gonçalo Pires resmunga, peleja,
Mas a autoridade é da Autoridade,
Lá vêm pelas ruas em procissão,
Cobertos de olhos relampeando inveja
Cama cobertor lençol e colchão.

Que úmido frio...Das várzeas em torno
Da noite vazia que não tem fim
Dissolve as casinhas a cerração...
O Ouvidor-geral sonha em cama boa
E Gonçalo Pires dorme no chão.

Delém! dem! dem!... O Ouvidor vai-se embora.
Sai mais festejado que quando entrou...
A Câmara impa de satisfação.
Mas os vereadores são bons paulistas:
- Que entregue-se a cama com prontidão.

Gonçalo Pires rejeita o bem dele.
Não dorme em cheiro de ouvidor-geral...
Se reune a Câmara em nova sessão.
- Lave-se o lençol! indica o notário.
Qual! Gonçalo empaca no rejeição.

Sete anos levam nessa pendenga
A Câmara Paulista e Gonçalo Pires,
Paulista emperrando, não cede não.
E a História não sabe que fim levaram
Cama cobertor lençol e colchão.