Como doido, vou cantando
num reino que não tem rei.

E uma voz, de quando em quando,
como alguém que não me ouvisse,
murmura (donde nem sei)
velhas frases que eu já disse,
cantigas que eu já cantei!

Paro, súbito. Procuro.
- Quem será que canta assim?
Nada vejo: é muito escuro
o mundo em torno de mim.

Nada vejo, mas prossigo
pelas terras de ninguém.
Sei que levo alguém comigo,
mas não posso saber quem.

De repente, o conhecido
sussurro de que falei
traz de novo a meus ouvidos
uns sons de cristais partidos
das risadas que já dei!
Paro, à força de um desejo,
- Quem dá risadas assim?
Olho em volta, mas não vejo
quem ri tão perto de mim!

Não vejo, entanto, caminho.
E, a cada passo que dou,
sinto que não vou sozinho:
como se eu próprio voltasse
à vida que já passou,
percebo que em mim renasce
o José que eu já não sou!

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Vida boa! só agora
descobri quem é o amigo
que, intransigente, a toda hora,
caminha junto comigo:
vivo eu em paraísos,
caminhe por entre infernos,
palmilhe mundos sem fim,
trarei sempre estes eternos
murmúrios feitos de risos
em mistura com lembrança:

a voz da eterna criança
que vive dentro de mim!