Penso em ti minha amada... A Natureza
se veste, junto a mim, toda de gala
e minh’alma a cismar, muda, resvala
às sombras da saudade e da tristeza.

É meio-dia. O sol no descampado
jorra termas ardentes de fulgor...
Tudo tem vida, tudo tem amor,
— só eu não tenho teu olhar amado. 

Oh! se estivesses a meu lado agora,
se em meu ombro pousasses tua fronte,
eu acharia luz neste horizonte,
afeto — em tua boca sedutora!

Nós iríamos juntos nos caminhos,
colhendo as borboletas infantis,
iríamos aos pássaros gentis,
ensinando os afagos e os carinhos.

E os lírios brancos do varzedo, quando
perpassássemos rindo entre cardumes
de quimeras e sonhos e perfumes,
tremeriam de inveja, murmurando.

Ao papear dos módulos arpejos
nas ramas dos silvestres matagais
— os passarinhos ledos, joviais,
glosariam, trinando, nossos beijos.

As trepadeiras, enroscando os laços
pelos caules pujantes e rugosos,
conosco aprenderiam os ditosos
ímpetos loucos dos febris abraços.

Ah! mas quem sabe se jamais a fronte
eu no teu colo pousarei, um dia?
Sei que do meu olhar a chama fria,
sem ti, não acha luz neste horizonte.