(A meu pai)

Este meu livro devia
ser um livro de criança,
todo verde de esperança,
todo rubro de alegria.

Devia conter somente
ilusões da mocidade,
abrir-se róseo e fremente
numa doida alacridade.

Contar amores... amores
como nós, os moços, temos:
cheios de êxtases supremos
e de infantis dissabores.

Alar-se todo, cantando
os doces hinos da Crença,
ser casto, ser meigo e brando,
ter sonhos de paz imensa...

E não é. E mau; é rude;
não guarda nobres encantos;
prefere aos Risos os Prantos,
prefere o Mal à Virtude!

E filho duma alma aflita
presa da dúvida insana 
desta idade, em que palpita
na treva a Consciência Humana.

Sofre de enorme tormento
que lhe rouba a seiva ardente:
desta moléstia inclemente,
que se chama “o Pensamento!”

Se busca o riso vivace
para afastar os pesares,
convulsa, ruga-se a face
em agourentos esgares.

Tem sob a rima sonora
— cadência que prende e agrada
muita queixa desgraçada
que estua, que geme e chora.

São versos de quem não soube
achar ainda um afeto
que toda a su’alma arroube
num sonho nobre e completo.

Versos de quem muitas vezes
buscou o amor doce e brando
e o viu partir, só deixando
ressaibos de amargas fezes;

de quem a amante procura
que resuma o que se exprime
— na Luxúria a mais impura!
— na Quimera a mais sublime!