Uma procissão de espantalhos,
pela miséria colorida,
pelos atalhos
vinha:
pediam vida, queriam vida!
E as suas caras eram trágicas
porque tinham todas a mesma expressão
— que era o mesmo que não terem nenhuma expressão.
E tão insuportável era aquela cara única
que a polícia atirou em cima deles bombas de gás hilariante.
Nenhum espantalho riu.
A procissão continuou,
a procissão está agora em plena Estrada Real
enquanto
pelos atalhos
por toda a parte
por cima dos gramados
por cima dos corpos atropelados
os automóveis fogem como baratas.
*****
Quem disse que a poesia é apenas
agreste avena?
A poesia é a eterna Tomada da Bastilha
o eterno quebra-quebra
o enforcar de judas, executivos e catedráticos em todas as
esquinas
e,
a um ruflar poderoso de asas,
entre cortinas incendiadas,
os Anjos do Senhor estuprando as mais belas filhas dos mortais...
Deles, nascem os poetas.
Não todos... Os legítimos
espúrios:
um Rimbaud, um Poe, um Cruz e Souza...
(Rege-os, misteriosamente, o décimo terceiro signo do Zodíaco.)