Ao Sr. Remígio de Sena Pereira

Cairão Ajax e suas frotas!

HOMERO — Odisséia

Sobre a escarpada rocha — levantada
Na vaga — como um túmulo marinho,
Sob eterno luar,
César — desce como águia derrubada!
No seio agora desse estéril ninho
É força repousar!

Dorme, crânio viril, dorme um momento!
Tens ali um sepulcro de granito
Eça de Briareu!
Como caído sol — teu pensamento
Vague agora — no mar desse infinito
Em meio de água o céu!

As eras de ventura lá passaram
Como frotas no mar. Impetuoso
Soprara o furacão!
As mornas tradições é que ficaram,
Que aquele mesmo gênio belicoso
Não voltará mais, não!

Já não ressoam os clarins da guerra!
E os bravos desse Homero das batalhas
Descansam a dormir!
Essa cruzada que assombrara a terra
Sob as ruínas de pálidas muralhas
E a força cair!

Caiu! Assim o quis o destino infausto,
Que a estrela de seus largos horizontes
Nos limbos despenhou!
Caiu! mas em homérico holocausto!
Sol moribundo erguido em mar de frontes
Um dia descambou!

Dorme agora — na rocha levantada,
César, sobre esse túmulo marinho
É força repousar!
És agora como águia derrubada!
Resta-te um derradeiro e estéril ninho
E um eterno luar!

Foi esta, Bonaparte, a nênia augusta
Com que saudou-te a humanidade a queda!
Descaída a realeza das batalhas
Tinha como um apoio derradeiro
Um alpestre rochedo. Em torno o oceano
Era como que a firme — sentinela
De um oceano subjugado agora!
Folga, Albion! A espada onipotente
Desse rei dos combates e das tendas
Não vergaste, quebrou! A tua glória
Era preciso que ao condor hercúleo
Um vento bravo despenhasse as asas!

Agora, Bonaparte, eis-te sentado
Sobre a escarpada rocha
Que ao corcel dos combates sucedeu!
Essa fronte que o gênio das conquistas
Afogou num abismo das batalhas
Tem agora por troa derradeira
Uma nuvem de pálidas lembranças!
Tudo, tudo passou! os dias belos
Os dias de Marengo
De Arcole, de Montmirail e de Austerlitz,
Lá vão! passaram como as folhas secas
Sacudidas do vento das florestas!

Passaram! resta o sudário
Do pesado esquecimento!
Resta o pálido ossário
De todo um mundo portento.

As cruzadas peregrinas
Moderno César não vens?
Por palmas capitolinas
Capelas de goivos tens?

Como Lázaro, acordaste
A humanidade dormente;
Que um povo de reis, fecha
Sob a mão onipotente.

E tu, que no berço ungiste
A infante revolução,
E toda a submergiste
Em um mais puro Jordão;

Que herdaste? um bronco rochedo
Onde a vaga geme a medo
Ouvindo — Napoleão!