É um canto de irmão. Crispam meus lábios
Entusiasmado, convulsões cruéis!
Toma esta lira; consagrei-a aos bravos;
Não na mancharam saturnais de escravos,
As opressões dos reis.

Uma idéia vital pulsa-lhe as cordas;
Elas palpitam na ovação de heróis!
Minha musa tem fé, arde-lhe inata;
A mão que antes selará insensata
Não beijará depois.

Má espera! essas nuvens de tormenta
Vai rasgar o clarão de um novo sol!
A hora bateu às velhas monarquias;
Da nova geração, dos novos dias,
Já se tinge o arrebol...

Os reis tiritarão entre os sudários
Quando essa aurora em novo céu fulgir;
A idéia pousará nos santuários;
E os povos se erguerão sobre os calvários
Aos cantos do porvir.

Eu te saúdo, espírito sem peias,
Que não gostaram cortesãos festins!
Proscrito errante que sustaste o pranto,
E sentiste e velaste o fogo santo
Que velaram Franklins.

Eu te saúdo, coração fervente,
No apostolado da missão do céu;
Que sentes no teu horto — atroz miséria!
Despedaçar-te artéria por artéria
O corvo de Prometeu!

Dez anos! Longe o lar de teus afetos!
Dez anos de cruenta proscrição!
O horizonte da pátria vai fechado;
A teus pés que infortúnio de exilado
Rebentam desse chão!

Longe! bem longe a opressão lançou-te...
Miséria, nem coragem de lutar!
Um dia despertaste enfim proscrito;
Como o viajor da lenda ergueu-te um grito:
— Caminhar! caminhar!

Foste vencido... era forçoso aos tronos!
Mas caindo, caíste vencedor,
Mais alto do que então inda te erguias;
Glória a ti nessas rudes agonias,
Vergonha ao opressor!

Glória a ti, cujos lábios não cuspiram
Da alma guardaste as roupas de vestal!
Vergonha ao opressor, corvo sedento,
Que rasga sem piedade de um lamento
A águia nacional!

Glória a ti, cujos lábios não cuspiram
Da liberdade no lustral Jordão
A água desse batismo é-nos sagrada;
Vergonha ao que na fronte batizada
Selou de proscrição!