Ao Sr. Dr. Francisco Otaviano

I

E Deus disse ao espírito incriado:
Desce na asa do vento;
Por entranhas humanas — encarnado
Dormirás um momento.

Lá te espera nos limbos palpitantes
De dura escravidão — a humanidade,
Prega a essas nações agonizantes
O dogma da igualdade!

Leva a casta virtude foragida
Entre virentes palmas;
E vai mostrá-la à multidão perdida
Como o pudor das almas.

Vai, meu Cristo — a missão é escabrosa;
Só terás dessas turbas em carinhos
Uma cruz — uma vida dolorosa
E uma c'roa de espinhos.

E descera o espírito incriado
Sobre a asa do vento,
E em seio virgem de mulher — fechado
Foi dormir um momento.

II

Era o sonho dos profetas

Que se encarnara em Jesus;
Daquelas eras provetas
A cara e esperada luz.
Profeta, da liberdade,
Cireneu da humanidade.
Que vinha tomar-lhe a cruz!

A humanidade o esperava
Nos sonhos de redenção;
Ele vinha erguer a lava
De um velho morno vulcão.
Missão de ventura e graça
Que fecundava uma raça
De que ele era novo Adão!

Era o Íris da bonança
No meio dos temporais
A verbena da esperança
Entre desânimo e ais.
Um sol vigoroso e ufano
Rasgando ao gênero humano
Um horizonte de paz.

Não teve Moisés augusto
Mais auréola de luz
Nem um brado mais robusto
A voz do poeta Ilus
Tu foste — Belém proveta
— Berço de um maior profeta
Sacrificado na cruz!

Batera a hora na ampulheta eterna,
E esse fato de um Deus que se agitava
No seio da fecunda humanidade
Surgira à luz. A natureza toda
Estremeceu e se arraiou mais bela!
Mas linda a flor dos campos nessa noite
O seio abrira. — No seu leito o homem
Nessa noite sentiu mais puros sonhos
Por sua mente revoar... E as almas
Que esta terra de abrolhos — maculará
Sentirão todas — um chuveiro de ouro

Vazar nas trevas de enlodados limbos!
E depois - no horizonte azul-escuro
Clara estrela raiou — estranha aos homens
Reis, a pé! — Ide além a um berço humilde
Depor as c'roas... é um rei mais sábio
Que nasceu na humildade e na inocência!
Viajor — que vingas a colina alpestre
Às frias virações da meia-noite,
Pára! — Uma aurora súbito se entorna
Por este céu — e aquela estrela branca
Que vês correndo no horizonte oposto
É a coluna de fogo do deserto

Que outrora o povo de Israel guiara!
É o astro polar que a humanidade
Há de levar à prometida terra,
Para que ela marche na impulsão dos séculos.
Foi assim que o profeta dos profetas,
O circunciso, apresentou-se aos homens!
Nem Roma em seus delírios de triunfo
O nascimento lhe obstava... Aos ombros
Trazia a toga das virtudes castas;
E o ideal da igualdade sobre a fronte
Era a divina, grandiosa auréola
De que vinha cingir a humanidade!
Que deu a terra ao salvador dos povos?
Uma cruz... uma vida dolorosa,
Uma c'roa de espinhos!

III

Dormes, Jerusalém? Morno ossuário
Deitado à sombra de fatais lembranças
Num leito secular,
Não sentes que no altar do teu calvário
O gérmen de verbenas e esperanças
Começa a rebentar?

Essa lenda de pranto e de amargura,
Esse drama da cruz e do calvário
Escárnio e a aflição:
Esses delírios de uma treva escura,
Esse fel e vinagre e esse sudário:
Foi tudo a redenção!

A redenção... A turba delirante
Nem pressentiu essa missão divina
Do filho do Senhor...
E selou num delírio agonizante
Aquela fronte casta e peregrina
Com o sinete da dor!

Deu-lhe a palma e coroa de realeza,
Sentou-se sobre um marco de granito
E a zombar o saudou!
E o Cristo, essa divina singeleza,
Nem um olhar lançara, nem um grito
Arquejante soltou.

Ide, marchai sangrenta caravana!
Cireneu, vem agora e dá teu braço
Pra ajudar a cruz.
Cantai, cantai por essa orgia humana!
A terra treme e se enegreja o espaço,
E o sol desmaia a luz!

Essa cruz, esse poste de suplício,
Em que o cordeiro pálido imolaste
Nas raivas infernais,
Se erguerá como o sol do sacrifício;
Brotarão dos espinhos que entrançaste
Perpétuas festivais!

Dia mais belo vazará do oriente,
E a noite de verão mais vaporosa
Nos vales dormirá...
Nas asas de planeta onipotente
Uma luz mais suave e mais formosa
Aos povos descerá...

Sim! é fecundo o sangue do calvário!
Se o Cristo agonizou daquelas dores
Muita palma nasceu!
Daquela cruz e pálido sudário
Um éden de perfume e de flores
Teremos por troféu!

Assim fechou-se a redenção dos povos!
Do drama do calvário - a humanidade
Uma c’roa viril teve em herança
Mais bela do que as cívicas coroas
De Roma — a triunfante:
A c'roa da igualdade!

Esperai! se essa palma de triunfo
Começa ainda a rebentar do Gólgota,
Não estão longe os tempos — em que a fronte
Há de ovante cingi-la à humanidade!
Assim o passo derradeiro e firme
A Canaã da paz será transposto;
Assim a cruz triunfará eterna,
Assim se fecha a redenção dos povos!