Entretanto o céu se levanta sereno
E pomposo corno para um dia de
festa.

LACRETELLE

Vês? No horizonte se debruça a aurora
Como um infante a rir;
As flores vão abrir-se: o luar se apaga;
Começa a vida; douram-se os outeiros...
Ai! e tu vás partir!

Partir quando este céu fulgia aos beijos
D'ignoto querubim!
Manhã do coração toldou-me o ocaso!
Nuvem negra por céu de madrugada,
Ou eça em seu festim!

E por que enviuvar das esperanças
A rebentar em flor?
Por que rasgar uma por uma as folhas
Da rosa da ventura embalsamada
Por um luar de amor!

Tu eras de meus sonhos de poeta
O beija-flor azul...
Eu te quisera, se te visse embora
Rotas as asas por noturno vento
Nos lodos do paul...

Eu te quisera inda a azular as pálpebras
A insônia dos festins.
Dera-te em cantos um dourado busto;
Do meu amor no seio dormirias
o sono dos querubins!

Eu era como o quebro ajoelhado
Ante o sol a nascer...
Madona amorenada de meus cultos,
Ergui-te unia ara e no calor dos joelhos
Não te dormi sequer!

E tu passaste adormentada e bela
Num berço de cristal;
Meu céu se iluminou por um momento,
Veio a realidade escura e fria,
Foi-se, foi-se o ideal!

Passou como um fantasma essa aventura
Criada em tanto afã.
E como o cactus que à noitinha abrira
Asa de ventania perfumada,
Morreu de antemanhã!

Morreu sem sol a pobre flor dourada
Dos sonhos meus e teus!
Morno ideal de tanta insônia ardente
Que uma noite dormira embalsamado
No infinito de Deus.

Eterno vacilar da morte à vida,
Sorte da criação!
Sempre o verme onde a seiva se derrama.
Onde a vida palpita e ri mais verde.
Sempre a destruição!

É uma lei... Mas a esperança resta
No feto do porvir...
Talvez bem cedo o dia se levante,
E a noite sacudindo o luar das tranças
Descanse e vá dormir.

Mas, tarde ou cedo que esse dia se erga
E volte a rir assim,
Durma meu nome no teu seio de fogo;
Não desfolhes os lírios da lembrança
Ai! lembra-te de mim!