Despe esses ferros de dormente escrava,
Que o sol dos livres no horizonte vem!
Velha cratera — o referver da lava
Atento e curvo todo um século tem.

Acorda! o sono da opressão devora!
Pátria de Roma — o Capitólio vê!
Pálida Itália — ressuscita agora
O ardor nos peitos — na esperança a fé.

A velha Europa ao teu arfar cansado
Vem debruçar-se em derredor aí;
E ao som valente do primeiro brado
Braços e espadas acharás por ti.

Apenas bata essa esperada hora
O anjo dos livres se erguerá de pé.
Pálida Itália — ressuscita agora
O ardor nos peitos — na esperança a fé.

O século é belo. A liberdade canta —
Virentes rosas sobre os seios nus!
Feto sublime de uma idéia santa
Vem no horizonte por um mar de luz!

Morte ao opresso que a tremer descora
E à luz nascente deste sol — não crê!
Pálida Itália — ressuscita agora
O ardor nos peitos — na esperança a fé.

Ontem a Grécia, como um sol caído,
Toda nas águas afogará a luz;
Das meias-luas o pendão temido
No ilustre solo lhe esmagará a cruz.

Um brado ergueu-a. Como estava outrora,
Da Europa à face levantou-se em pé.
Pálida Itália — ressuscita agora
O ardor nos peitos — na esperança a fé.

Página bela da grandeza antiga,
Tens inda o selo de um real poder;
Os rijos copos dessa espada amiga
A mão do tempo não quebrou sequer.

A rubra púrpura de reinar de outrora
Hoje uma toga popular não é?
Pálida Itália — ressuscita agora
O ardor nos peitos — na esperança a fé.

A idéia é fogo que ateado lavra.
E tudo abrasa nessa ardente ação.
Rompe, desprende essa fatal palavra;
Outras cativas erguerás do chão.

Olha a Polônia escravizada chora:
E o sol dos livres inda espera e vê.
Pálida Itália — ressuscita agora —
O ardor nos peitos — na esperança a fé.

Ao braço impuro de opressor ingrato,
Bela cativa, não te curves, não!
Da liberdade o sentimento inato
E um incentivo na tremenda ação.

Não, não consintas, tu liberta outrora
Sobre teu colo levantar-se um pé.
Pálida Itália — ressuscita agora
O ardor nos peitos — na esperança a fé.

Levanta as tendas. Uma onda brava
Quebrar-te os ferros pelo mar i vem!
Velha cratera — o referver da lava
Atento e curvo todo um século tem!

Acorda! O sono da opressão devora!
Pátria de Roma — o Capitólio vê!
Pálida Itália — ressuscita agora
O ardor nos peitos — na esperança a fé.