Já da terrena túnica despida,
Voaste, alma gentil, à eternidade;
E, sacudindo à terra
As lembranças da vida, as mágoas fundas,
Foste ao sol repousar da etérea estância.

Nem lágrimas, nem preces
O despojo mortal do sono acordam;
Nem, reboando na mansão divina,
A voz do homem perturba
O espírito imortal. Ah! se pudessem
Lágrimas de homens reviver a extinta
Murcha flor de teus dias: — se, rompendo
O misterioso invólucro da morte,
De novo entrasses no festim da vida,
Alma do céu, quem sabe se não deras
A taça cheia em troco do sepulcro,
E agitando no espaço as asas brancas
Voltarias sorrindo à eternidade?

Não te choramos pois; descansa ao menos
No regaço da morte: a austera virgem
Ama os que mais sofreram; tu compraste
C’o a dor profunda o derradeiro sono.
Choram-te as musas, sim! choram-te as musas
Choram-te em vão, — que das quebradas cordas
Da tua lira os sons não mais despertam;
Nem dos festivos lábios

Os versos brotaram que outrora o povo
No entusiasmo férvido aplaudia.
Apenas (e isso é tudo!)
Fulge c’oa luz da glória
Teu nome. Os versos teus, garridas flores
De imortal primavera, enquanto o vento
Inúteis folhas pela terra espalha,
Celeste aroma à eternidade mandam.

Tu viverás. Não morre
Aquele em cujo espírito escolhido
A mão de DEUS lançou a flama do estro
Traz do berço o destino. Em vão, fortuna,
Lhe comprimes a voz, a voz prorrompe.
Tal o rochedo inútil
Ousa deter as águas;
A corrente prossegue impetuosa.
O campo alaga e a terra mãe fecunda.