A estrela da tarde sorri desmaiada
No azul embalada de um fogo vital:
Que luz vaporosa nos belos palores!
Que facho de amores! que flor de cristal!

Murmura nas praias a vaga indolente
Um véu transparente se estende no ar;
Os silfos se fecham no seio das rosas
E as brisas saudosas murmuram: — amar!

Estrela do ocaso, é a hora. Bem-vinda!
Que aurora tão linda, tão doce que tens!
A terra desmaia nos braços do gozo,
E um doce repouso lhe entorna mil bens!

Bem-vinda! aos amores que mágico ensejo!
Desperta o cortejo dos astros do céu.
Estrela das sombras, etéreo portento,
Nas asas do vento — desdobra o teu véu.

Vem, que eu te saúdo dormente do acaso;
Esplêndido vaso de um novo fulgor,
Às almas que o fogo da terra queimara
Tu és como a ara de crenças e amor.

Meu lábio secou-se no sol do deserto,
Nem fonte aí perto! cruenta aflição!
Passei tateando nas sombras da vida
Como ave caída nos lodos do chão!

A taça dourada do amor e ventura
Achei-a bem pura — mas não a bebi,
Do éden da vida rocei pelas portas:
As mãos eram mortas; ninguém veio ali,

Passei; fui sozinho no longo da estrada;
A noite pesada descia sem luz,
Segui tropeçando num frio sudário;
Agora um calvário, mais tarde uma cruz!

Estrela! cansado das lutas, vencido,
Dos sonhos descrido, ressurjo, aqui estou!
O manto da vida cai-me aos pedaços
Recose-me aos braços que o frio engelou.

São crenças que eu peço de um gozo celeste;
No tronco ao cipreste — rebentos de flor;
Aos prantos que choro mais rir de doçura,
Mais pão de ventura, mais sonhos de amor!

Estrela! — é a hora do gozo — desperta!
Uma alma deserta palpita de amar,
Vem, loura do ocaso, falar-me em segredo,
Não fujas, é cedo; não caias no mar