Eram dois jovens, cada qual mais belo:
Um tinha na alma o inferno derretido,
Noutro havia nos olhos buliçosos
A noite, e um céu de estrelas suspendido.

Contudo parecia que brincava
Neles a graça da estação das rosas:
Ria-se o moço tanto!... e traz a moça
Tanto prazer nas formas descuidosas!...

Iam num carro: era do Rohe... lindíssimo!...
Os cavalos do Cabo, e o cocheiro,
Um mulato brunido ao sol dos trópicos,
Crendo esmagar aos pés o mundo Inteiro.

— Para onde iremos? À Lagoa? À Gávea?
A Andaraí? Ao Prado? Hoje há corridas:
Dize. — Para ir contigo a toda parte,
Quisera ter e repartir mil vidas.

— Nada: nem Prado, nem o resto... quero
Um dos prazeres que aos demais prefiro.
—Manda o cocheiro, — diz o esposo; e a esposa 
Diz ao cocheiro: — Em direção ao Tiro.

Sai da boca da moça um céu de estrelas,
Quando o lábio sorri, ou mexe ou fala,
E das roupas de seda roçagante
Todo o perfume a primavera exala.

De umas rendas alvíssimas desponta
Em cuidado abandono um pé mimoso,
Raio de luz, que leva ao sol de um Éden...
Fresta do céu... e mais dizer não ouso...

Chegam. — Erra o marido o alvo: os tiros
Multiplica, mas nada. — A linda esposa
Ri-se, galhofa, zomba do desazo,
E às amigas não fala de outra coisa.

Já chameja-lhe o rosto afogueado
E à sombra das espessas sobrancelhas,
Como dois astros, que orlam duas nuvens,
Chispam seus olhos lúbricas centelhas.

Não erra nunca, ou poucas vezes. — Olham-na
Com amoroso quebro os jovens. — Ela
Olha-os também assim: julga que o pode:
Sabe que é moça, e muito mais... que é bela.

Talvez somente desagrade ao esposo
A mimosa e ligeira travessura...
Há tanta gaza sobre os mimos dela!...
Mescla tal pejo na sutil soltura!...

Mas quem pudera não tremer, notando
Aquele andar felino, e a macieza
Daquele olhar tão lânguido, que corta
Como aço de Milão ou de Veneza!...

— Voltaremos, diz ela, sem ao menos
Dares no alvo uma vez? de novo ensaia: —
Riu-se: não tem o mar mais alvas conchas,
Quando a onda arregaça e mostra a praia.

Estava ali perto uma marmórea estátua;
Era Diana. — O esposo num sorriso
Envolvendo a mulher, lhe diz: — Finjamos,
Que aquela estátua és tu, meu paraíso.

Vamos pois ver se agora inda erro o alvo!
Olha pra ali, rainha invicta e ufana.
Parte o tiro; — feriu; — esboroada,
Cai por terra a cabeça da Diana.

— Beijo-te os pés, divina criatura, —
Diz-lhe, — e desata um rápido suspiro, —
Só tu, anjo de amor, podias dar-me
Firmeza à mão... e tal certeza ao tiro.