(A C. G.)

Depois de ter recitado em cena.
O Legendário

Hão de as palmas cair de toda parte,
Há de sorrir-te a musa da harmonia,
E à luz do palco, então melhor que o dia,
— deusa nova da voz — hão de aclamar-te.

Dir-te-ei de longe, sem falar: — Coragem!
Esmaga a turba com teu pé, criança: —
E todos levarão na alma a lembrança
Da tua doce e rápida passagem.

Como na pira incendiado toro
De floresta de sândalos roubado,
Deixarás um aroma delicado,
Tal pelo céu a luz de um meteoro.

Mas foge como a estrela que fulgura,
E acende o céu um pouco só... mais nada:
Volta, ó pérola, à concha sossegada;
Só na sombra é que há saibos de ventura.

Bem sei que não há sombra em que se acoite
Quem tem em si do gênio o vivo lume,
Que a estrela brilha inda escondendo-a a noite,
E à noite exala a flor melhor perfume.

Os bravos ovações, auréolas, flores,
Os lauréis, nos triunfos populares,
Juncarão um só dia os teus altares,
Por muitos dias pálidos de cores.

Custa muita ilusão perdida a glória,
Muitas noites sem paz, sem sono e calma,
Para levar-se uma enfezada palma
Ao túmulo de ouro, sim, mas vão da história...