Deixaste-me às portas de ouro
Do Paraíso: — entreabriste
Uma fresta, e quando viste
Que na louca embriaguez
Eu já estava de entrá-lo,
Sem o mais ligeiro abalo
Me arremessaste um sorriso,
A chave que o paraíso
Logo mo cerrou de vez.

O raio, que nos fulmina,
O abismo, que nos devora,
Não tem o terror da aurora
Desse teu fulvo sorrir:
Luz nele havia, inundava
Campo vasto, árido, incerto
E fundo, como um deserto,
Em que deve andar bem perto
Com seus tesouros Ofir.

Galopei no teu sorriso
Como um hipógrifo em sonhos,
E por valados medonhos,
Hirtos, profundos, rolei:
E sem saber como hei ido,
Roto, esmagado, perdido
Por uns páramos infindos,
A luz dos teus olhos lindos
Por cima dos meus achei.

Ergui os braços, os joelhos
Vacilaram-me transidos:
Meus lábios mal desunidos
Murmurejaram: — perdão...
Tu, como o anjo do Éden,
Sem dar ouvido aos que pedem
Às portas do paraíso,
Conservando o teu sorriso,
Tu... tu... murmuraste: — não!...

Era um murmúrio tão baixo,
Como um bálsamo de vida
Com que se pensa a ferida,
Que sangra e não quer fechar:
Como um retalho de seda
Com que a pálpebra se enxuga:
Como um anjo, que na fuga
Do céu, procura a vereda
Que leva a escuso lugar.

Porém não pude ir mais longe:
Estendendo o dedo e o braço,
Mostraste-me além o espaço:
Sentei-me e fiz que não vi:
Sentei-me à porta, caindo;
E ali quis ficar, ouvindo
Essa música distante:
E tu gritaste: — adiante...
Ergui-me, chorei, parti...

Recordo. — Bastou somente
Para fechar-me o paraíso,
Arregaçar-te um sorriso
Da boca os rubros corais:
Calmo sorriso, deserto
Cheio de luz, que devora:
Caminha-se; e a cada hora:
É um oásis agora?
É deserto e nada mais.

Deixei atrás as areias:
Adiante areias ainda; 
E tua figura linda
Sempre... sempre a andar em mim!...
E tu serás como um sonho,
Que em todos os sítios ponho,
Feito só de meu desejo:
Eu te vejo, eu te não vejo...
Deserto, não terás fim?

Hei de andar, alma erradia,
Sem prazer, e sem conforto,
Frio, como um corpo morto,
Deixado à beira do mar,
Vendo as ondas uma e uma
Lançar o soluço e a espuma...
Saber que o mar não descansa,
Que lhe morreu a esperança,
Porém não a de chorar.

Sempre uma mulher formosa,
Que nos meus sonhos eu traço:
Sempre uma sombra no espaço,
Sempre uma porta a se abrir:
Sempre um Éden, que desenho...
A que portas bater venho?
As portas, onde estão elas?
Entre as estrelas mais belas
Sempre a visão a fugir!...

Ah! se eu te encontro algum dia!
Se o mistério se descerra!...
Se eu te levanto da terra,
Em que altar te hei de eu pôr?
Em cima de que montanha,
Tão verdejante, tamanha,
Terás meu culto, querida?
Em cima de minha vida,
Em cima de meu amor. 

E não terei outra sorte,
Não espero outro destino;
O bordão do peregrino
Será meu arrimo pois:
Eu terei no meu caminho
Sempre uma árvore sem ninho,
Sempre uma noite medonha,
Sem saber onde os pés ponha...
Sempre ais e vento entre os dois...

Sim! sempre a de ir contra as rochas
Bater, e gemer somente:
Ficar convencido e crente
Que não há mais a fazer...
Sim!... ficarei prisioneiro
Em torno do mundo inteiro...
Perdi tudo!... Com efeito
O coração no meu peito
Ficou de amor a morrer,

Como um monte na invernia,
Tronco sem folhas e flores,
Noite empolgada de horrores,
Onde cantam temporais:
Como o rochedo indiferente,
Como o rio sem corrente,
Como praia sem lamento
De mar, de vaga, de vento...
Onde há só morte, e não ais...

Relincha, meu hipógrifo,
Bate as asas pelos ares;
Sacode bem os pesares;
Nelas há bem desse pó:
Quando em ti eu for montado,
Tu levas um desgraçado, 
Sonhando... sempre sonhando...
Tu levas um miserando,
Tu levas um triste só.

Onde estão as portas de ouro
Do paraíso perdido?
Mas para tão longe hei ido,
Que não sei mais onde estão:
Tu andas em toda parte:
Eu procuro, para amar-te;
Para servir-te eu procuro:
No passado e no futuro,
Sempre esta eterna visão!...

Tu estarás, como a Aurora,
Como a Vênus matutina,
Cujo fado, cuja sina
Em seus palácios reais,
É rugir ao sol, que chega,
Não mais encontrar a veiga,
Nem aos vergéis dar seu pranto:
Dizendo ao sol entretanto:
— Sol! jamais... jamais... jamais...

Eu, aurora, não me tenho
Como o sol no azul distante;
Astro não sou rutilante,
Que dê tamanho clarão;
Nem sou verme luzidio,
Brilhando às margens de um rio,
Ou pelas margens de um vale;
Não sou nada que te iguale:
Mas eu sou um coração.

Ouve: jamais!... também digo,
Jamais! repito eu agora,
Como a estrela, como a aurora 
Nos seus ricos arraiais
Sem nunca contar contigo:
Vejo céu, não vejo abrigo;
Entre nuvens passo, e morro,
Náufrago enfim sem socorro,
Sem vida, sem nada mais...