That fools rush where angels fear to tread.
Pope 

Per amica silentia lunae...
VIRGÍLIO — ENEIDA

I

Era à beira do mar um louco. — A vaga
Ia após vaga escabelada e a plaga
Desciam rindo ou rorejando em pranto
Glauco, em nudez, ao olhar da lua, enquanto
Num verde aflar, num sonolento esforço,
Cianótico o mar, rugoso o dorso,
O dorso azul de escamas prateadas,
Nelas metia as patas de elefante.
Ouvia-se, ao fugirem do gigante,
O rumor das pequenas gargalhadas,
Que iam a rir nas verdejantes bocas,
Quando umas a saltar sobre outras, loucas!
Como um bando de virgens tresmalhadas,
Esfuziavam de volta à branca areia,
Só para ter o delicioso gozo
De ver o velho, em cólera e espumante,
Vir de novo e de novo atrás voltar...
E estava à praia luminosa cheia
Desse vago rumor que anda ao luar.

II

E era à beira do mar, e só. — As ondas
Já muito quietas, tímidas, redondas,
De largos pingos de ouro salpicadas,
Como fímbrias sutis, arrendilhadas,
De um manto enorme, real, desenroladas
Na nua praia branca e solitária,
Que se arqueia na curva graciosa
De dois braços, que querem recebê-las,
De um deus qualquer, que molda a mente vária;
Cosia o manto azul milhão de estrelas, 
Que no contínuo e tépido balanço
Vão como cisnes de ouro ali de manso...
Cobre o mar fina espuma de um tecido
Fabricado em teares holandeses;
E estava assim tão belo e bem vestido
Como costuma estar bem poucas vezes.

III

E era à beira do mar, e só!... Ao longe
Em cada teso ajoelhava um monge.
No palor baço e turvo que a envolvia,
Ao sul e ao norte, a crespa serrania
Recortava o seu dorso colossal.
Os rochedos desnus dos altos cimos,
Como pedaços de cristal polido,
Refletem ao luar as mil facetas,
Num véu de gaza fina amortecido.
Iam brincar os raios dos planetas
Nas arestas de um mísero palhal,
E as tornavam de longe, sobre os mares,
Como as brunidas torres seculares
De uma marmórea habitação real...
Névoa impalpável, úmida, ligeira
Acariciava a natureza inteira,
Hausto largo de um beijo virginal...

IV

E era à beira do mar, e só. — A lua
Em leito mole reclinada e nua,
Calma viúva, inerte e solitária,
Quase estagnada como a luz de um poço,
Morbe, como o rumor de uma plegária,
Parecia cismar num noivo moço.
A luz de um poço... um poço no deserto,
Que inda está longe e está-se a ver tão perto...
E um poço azul num céu azul cavado,
Céu, cuja curva doce lado a lado
Dessa abóbada imensa o espaço ampara:
E a luz fluida de um poço em todo o espaço
Devera envenenar e a quem provara
Dera ainda mais sede e mais cansaço...
Lua, filha da dor e da saudade,
Serás viúva em toda a eternidade...
Tu irás só por todo o teu caminho,
Nenhum beijo de amor, nenhum carinho;
Cheio de sonhos teu aflito peito,
Sem companheiro em teu divino leito!...
E o que é pior, sem mesmo uma esperança...
Dize, viúva do amor, a dor não cansa?...

V

E era à beira do mar, e só... — Findara
O mês de março: o outono, que começa,
Respirava uma límpida bafagem,
Raro incenso cercando a luz de uma ara;
E nessa hora da noite azul, e nessa
Exalação suave, que a envolvia,
Serena, calma, voluptuosa, e doce,
Enamorando a sua própria imagem,
Se desatava a esplêndida baía
Como se a própria Guanabara fosse
Que do fundo do mar ali surgia.
As brancas velas túmidas, inchadas
Pelas noturnas, frígidas rajadas,
Como lâminas de aço embaciado,
Iam cortando o ar a punhaladas,
Por um braço invisível manejadas.
Eis um drama da noite recitado
No palco azul da vaga luzidia.
Como um lago de forma circular,
Até aos pés dos Órgãos a baía
Se estende, como um céu que vai quebrar.
As ilhas que lhe dormem pelo seio,
Cheias de luz, pousando sem receio
Parecem aves de ouro a ressonar.
Nas montanhas mais próximas, banhadas
De luz mais branca, e nessas afastadas,
Em fundo mais escuro e vaporoso,
Como um bando de pombas em repouso,
Ou também como grandes mariposas,
Aqui e ali, mais longe, abaixo e acima,
Encolhidas no flanco as largas asas,
No dormir a sonhar das grandes coisas,
Que um raio acorda e que uma voz anima,
Entre flocos de luz as níveas casas
Riem pra o céu profundo as telhas de ouro.
Era uma velha revestida em monge
O Pão de Açúcar, que se via ao longe,
Velha indiana de pedra, sem cocar,
Cuja cabeça nua ao luar brilha,
Glaucamente inclinada e olhando o mar:
Parece inda chorar a linda filha,
E sobre a prata líquida, que cobre
A cova sua, como lapa enorme,
Sentinela avançada, que não dorme,
Recurva o busto amorenado e nobre.
Além o oceano majestoso para:
Aquém, no manto escuro de granito,
Há séculos que chora a Guanabara,
Muda e inda soltando um mudo grito.
Os outeiros ao pé, seu leito outrora,
De veludos de relva estão cobertos,
Dos seus lençóis esplêndidos desertos;
E onde a fria nudeza alpestre mora
Foram tálamos régios e opulentos,
Cujas cobertas de esmeralda fina,
Sob as tendas do céu à chuva e aos ventos,
Uma e uma esfizeram-se em ruína.
E os criptogamos, epitáfios lentos
Que o tempo escreve, o tempo a ler ensina. 

VI

E era à beira do mar, e só. — De tudo
Isso era parte um louco... um louco e mudo!
Ele estava no céu, no mar, na lua,
Nas encostas da serra, onde flutua
Dentro, no meio do matal maciço,
Sempre cheiroso, e em flor, e sempre em viço,
Um clarão lirial pelas abertas,
Como um bando de Dríades em dança,
Que numa volta espalma-se e descansa
Em posições fantásticas, incertas:
Aqui e ali na imagem vaporosa
Que a luz da noite vagamente aviva,
E que de roupas mal cosidas veste,
Como falange esplêndida e celeste,
Que os deuses deixam vir dos seus Olimpos,
Por caminhos do céu, de nuvens limpos,
Nas virações, nos barcos, nas ilhotas,
Junto, na praia, ao longe, nas remotas
Colinas e nos mil rumores vagos,
Nos vergéis, que andam rindo ao pé dos lagos,
E florem sempre, perfumando os ares,
Da natureza em rútilos altares,
Que sustentam o que grande e etéreo há na arte,
O louco estava em tudo e em toda parte,
Como de tudo um átomo esquecido.
Mas dentro em tudo, em tudo enfim metido.
Ele cria que tudo — céus e estrelas,
Quantas vê, quantas há, sem poder vê-las.
Ele e o vento, onda e mar, acesos lumes,
Vozes, rumores, músicas, perfumes,
A noite, e toda aquela claridade,
Num pasmo só, num único desejo.
Tudo esperava estranha divindade,
Obra feita de amor e luz de um beijo,
Que a vida remoldara num festejo
Tão longo como a mesma eternidade... 
Velha história de amor, que é sempre nova,
Que anda sempre a oscilar do berço à cova.

VII

E era à beira do mar... Ela não vinha!
Espumava-lhe aos pés a alga marinha!
E o mar macio, lânguido, domado,
Dos clarões do luar incendiado,
Menos água, que os olhos seus, continha.
Ele sentia o vago inquietamento,
Que atinge a noite em todo o firmamento,
Que tem o mar, com que soluça o vento,
Com que para o seu fim tudo caminha;
Sobrava-lhe o infinito do desejo:
Cada rumor lhe parecia um beijo,
E essa sombra de um beijo inda o sustinha,
Fluida ambrosia enchendo uma cratera,
Em que ia, segurando as duas asas,
Beber o céu, os sóis e a primavera.
Talvez, porém, na palidez serena
Do seu rosto suave e doentio,
A sua alcova límpida e pequena
Iluminava, se escondendo ao frio.
Nas ondas loiras dos cabelos dela
Depor quisera todo o firmamento,
À branca fronte o olhar de uma gazela,
Astros em roda, em giro sonolento!
Sonho de amor, que se prateia à lua,
Que abre de noite como o cacto expande,
Que das Quimeras entre os sóis flutua,
E que é, como albatroz, em azuis só grande!...

VIII

Quando o dia voltar, trazendo aos ombros,
Como um rochedo de ouro o sol polido,
Nos cinábrios do esplêndido vestido,
Toda envolvendo-a um flavo pó de escombros
Escondendo esta noite e o luar brando,
Onde estará o louco desnoitado?
Por onde ele andara peregrinando?
Em que deserto ele refaz seu sonho?
Em que vórtice novo irá levado,
Vórtice novo, feio, atro, medonho?
E esta noite tão lânguida e serena,
Pelo beijo de um deus qualquer sagrada,
Que entre frouxos de luz se morre, e é pena!
Quem a terá nos seios seus guardada?
Acres brisas da noite, ó doce alento,
Em que o ar do seu peito se mistura,
Ide mexer-lhe o branco cortinado,
E roçar, quase a medo, a fronte pura
Dessa angélica e suave criatura,
Já que o não pode o mísero e coitado!...
Em que musgo se aninha uma ventura!...
Noite... noite de amor, como hás passado?
Mas ficaria o teu reflexo puro,
Para lembrança eterna do futuro,
Nalgum canto do céu iluminado?
Quem saber pode a triste história a fundo
Dos loucos sonhadores deste mundo?!..