Naquele engano d'alma ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito.
Camões — Lusíadas

I
(Tarde de verão)

Dejando a los dos iguales
Dicha y desdicha...
Calderón de la Barca — Comédia

Ah! meu bem, eu só lamento,
Que talvez essa ventura
Não seja de tanta dura,
Quanto era bom esperar!...
Já que o tempo tudo mata,
Farta-me bem meus desejos...
Ai! sacia-me de beijos,
E deixa o tempo matar!..

Tudo dura pouco ou muito:
A sorte o que nos destina?
Se hoje o gozo não termina,
Esperemo-lo amanhã...
Ai! esperemo-lo!... E enquanto,
Prende-te bem ao meu seio:
Não tolde nenhum receio.
A tua fronte louçã.

Gozemos. — Que importa o resto?
Terra, inferno, paraíso?
Perdemos dois o juízo
No mesmo aperto de mão...
No mesmo arfar do desejo,
No mesmo tremor do seio,
No mesmo confuso enleio
Na mesma doida emoção!

Caímos. — Tu te abraçaste
No mesmo abismo comigo:
O nosso maldito abrigo
Tinha um encanto fatal.
Dormimos no mesmo lodo
Ocultos do mundo inteiro;
Junto ao nosso travesseiro
Cantava o anjo do mal.

Sorrias!... E o sol passava,
Beijando-te o céu da fronte;
E procurava o horizonte
Morno... calmo... sem parar.
Eu te apertava em meus braços...
Convulsamente apertava...
E quanto mais te beijava,
Mais te queria beijar!...

Parecia-me que a noite
Do nosso céu de ventura,
Tenebrosa, feia, escura,
Acaso podia vir:
Que este clarão misterioso
Deste sol de felicidade,
No abismo da eternidade
Podia breve cai!

Volta o sol. — Mas a ventura
Não tem tão certeiro giro...
Gozemos pois no retiro...
Deus enche os abismos, dando
Tantas pérolas aos mares,
Astros à noite aos milhares,
Milhões de flores ao val.

Deu ao nosso fundo abismo,
Que tantas sombras reveste,
Esta ambrosia celeste
De leite, de mel, de amor!...
Gozemos. — Antes que chegue
O fim, que tudo ameaça,
Esvaziemos a taça,
Antes de em meio a depor...

Quem sabe? — Gozemos hoje...
Manhã por vir não é nossa...
E a vaga, que engrossa, engrossa,
Da praia estala ao sopé...
Quem sabe? — A árvore pende,
Com o fruto de ouro, e deixado,
Qualquer vento inopinado
Pode arrancá-lo! — não é?!

II

Não sei se fiz mal, se bem.
Bernardim Ribeiro — Menina e Moça

Pusera-se o sol. — Qual fumo
De uma caçoula apagada,
Via-se a névoa enrolada
Nos crespos cimos crescer.
Além da amplidão das águas
Mexidas ligeiramente,
Branca lua no oriente
Mal vinha então de nascer. 

À aragem trêmula, — as flores
As róseas frontes baixavam,
E no caminho entornavam,
As urnas do seu olor:
Moldurava a natureza
Um quadro de ébano e prata...
Ao longe a sombria mata
Fazia surdo rumor!...

No tanque, que a lua banha
De moles clarões, nadava
Alvo cisne, que cortava
As águas sem as turvar...
Raras estrelas fixadas
No fundo dessa bacia,
Tinham tal melancolia
Que pareciam chorar!

Os nossos olhos buscavam
O que perto e longe havia...
Branca vela além corria,
— Branca pomba em branco mar —
Os remos iam fazendo
Leve rumor... leve espuma:
Um carro de bois, em suma,
Dorme, sem bois, junto ao lar.

Do raro arvoredo a sombra
Esparsa no chão flutua...
Nas vidraças bate a lua,
Dentro delas não há luz...
Não sei que mau pensamento
Nosso respirar comprime!...
Ai! talvez o anjo do crime
Ali a sós nos conduz.

Latiu um cão... Não sei onde...
Sombra do doce ruído,
Que ofendendo o nosso ouvido,
Convulsava o coração...
E eu sua mão apertava
Naquele jardim ameno...
E um lento, lento veneno
Me entrava por sua mão!...

Fez-se depois um silêncio,
Que espreitar-nos parecia;
Nenhuma folha caía,
Nenhum estranho rumor...
Nenhum estremecimento
Pelos troncos... nu, deserto
Céu, e mar, e terra... e ao perto
Tudo a espiar nosso amor!

Assim na vaga azulada,
Como nos braços da amante,
Asa aos ventos, branquejante,
Palpita, ofega o batel;
Não está longe a praia: ri-lhe
Perto a esperança fagueira:
Prende-o às vezes na carreira
Rude punho de um parcel...

Oh! quem pudera, meu anjo,
Prender esta natureza,
E ter a doce certeza
Que não nos fugira mais!...
Nós aqui juntos... sentindo-a,
Como o fremir de um navio
Atado às margens de um rio

Nas hastes dos palmeirais!...
Sim! no oceano dos tempos, 
Que corre incessantemente,
Uma hora destas somente,
Quem pudera suspender!
Sentir os haustos profundos,
Que saem da imensidade...
Gozar dessa eternidade...
Depois... e depois?... morrer!...

Ai! morrer entre os teus beijos!
E à sombra do teu sorriso
Ir até ao paraíso
Levado por tua mão...
Nenhum parcel entre as vagas,
Nos rosais nenhum espinho...
Enfim seguir o caminho
Por onde os ditosos vão...

Eu que sabia que o tempo,
Que é tão tardo ao desgraçado,
Foge com voo dobrado
Dos felizes: exclamei:
— Podes fugir... leva... arrasta
Tudo em tua correnteza;
Fica-me embora a certeza,
De quanto... quanto gozei!...

Sei que virei talvez cedo,
Ao mesmo jardim querido...
Que tudo terei perdido
Com ela... pois o não sei?!...
Lua, brisa, troncos, flores,
Esta relva de veludo...
Sim! hei de ter talvez tudo...
E a ela só não terei!...

Terei do quadro a moldura:
Sim! terei a natureza!
Mas não terei a beleza,
Que fazia o encanto seu:
Que importa o estojo dourado,
Que tinha dentro o diamante,
Quando esta pedra brilhante,
Mau fado! já se perdeu?!...

Vaga inconstante do tempo,
Que sobre nós ambos corres,
Bem cedo, bem cedo morres!
Mas como ensopada vais
Dessas lágrimas tão doces
Que à alma arranca a ventura,
Porque nessa hora a criatura
Tem menos riso e mais ais!...

Eu prelibava a saudade
Deste tempo, que fugia...
E minha fronte caía,
Mau grado meu! de terror;
Ela entendeu-me a tristeza...
— Era a sua alma tão minha! —
Que a mesma tristeza vinha
Lavar-lhe a fronte em palor!

Nisto um suspiro saiu-lhe
Do lábio quase entreaberto;
E todo aquele deserto
Pareceu-me suspirar:
Assim quando o vento passa,
Branca vaga que se alteia,
Cresce... ondula... e cai na areia,
Geme... ondula... — e volta ao mar.

Assim transborda do vaso,
Alva gota cristalina;
Não do vaso, que se inclina, 
E derrama o doce olor,
Porém de vaso tão cheio
De um licor ebrioso e santo...
Que é tanto... tanto... mas tanto...
Que há de algum por fora pôr.

E eu tonto... perdido... louco
Naquele deserto espaço,
Peito a peito, braço a braço,
Já não sabia falar...
Eu enleava-me em torno
Dessa divina cintura,
E já sentia a quentura,
Que me devia matar!

Dava-lhe a lua na fronte
Alva, bela, alabastrina...
Como uma espessa cortina,
Ou como sombrio véu;
Os bastos cabelos negros,
Que mansa brisa agitava,
Do mundo aos olhos furtava
Aquela visão do céu.

De joelhos ao relento,
Vendo também as colinas
Em seu manto de neblinas
Ajoelhadas — talvez —
Naquela luz duvidosa,
Que toda a terra embebia...
Eu não sei o que fazia...
Ela... não soube o que fez!...