— Donde vem essa barca auribordada,
Como entre flores peregrino altar,
Por briosos cavalos arrancada?
Espumam, como quando corre o mar.
Quem vem nela? A que terras é levada?
Em que oceano profundo a irão lançar?
Sobre que areias brancas e macias
Vai ver rolar o ouro dos seus dias?
Mas... por que tantas faces vão sombrias?
Que tormenta elas veem no céu pairar?

Cobriram-na de belas coroas: creio
Que isto só podem ter os imortais!
É pois uma heroína em seu passeio,
Que dentro dessa barca azul levais?
Não são seus louros em batalhas ganhos,
Não são seus feitos tantos e tamanhos,
Que estão pedindo estemas triunfais?
Qual vai ser seu destino? e donde veio?
Mas... vós levais intumescido o seio:
Deveis rir, indo à festa: e vós chorais? —

Isto apenas o louco murmurava:
Depois como o acordando de um letargo,
Ria-se; e era o seu riso tão amargo,
Que era melhor chorar; e não chorava.

— O sol, que cai por mar a dentro, volta:
Hão de vê-lo amanhã pelo horizonte;
E ela não surgirá sobre algum monte:
Levou-a de uma vez, quem a levou.
E há quem suspenda a pérola marinha,
Quem ache um mundo em incógnito oceano,
Basta-lhe um tronco e em cima dele um pano;
E há quem encontre a estrela que buscou!

Cantava, como o azul profundo canta,
Cantava, quando a primavera ria,
Como canta a cigarra à luz do dia.
E inda ao luar em noites de verão:
Essa mulher era a canção eterna;
Cantava, como canta toda aurora:
Não sei se alguém, que a viu, e a amou, a chora:
Eu? Chorar? Para quê? — Chorava em vão.
Tivera-a um dia, acaso entre os meus braços,
Como pomba a fremir presa a dois laços,
Ai! de prazer eu choraria então... —

Parecendo perder a razão toda,
Dizia o louco: — Eu vim também à boda... —

E logo viu abrir as férreas grades
De um jardim grande e muito povo entrar:
Lá dentro anjos de pé, rosais em bando
Sobre estátuas de mármore trepando,
E rotundas e a cruz de quando em quando.

E a toda a gente andava a perguntar:
— Se lá na extrema se estendia o mar?... —

Moviam-se os ciprestes, meneando
Lugubremente as frondes devagar,
Mais devagar as frondes levantando...
Dois pássaros cantando em desafio
Na ramaria agora, agora no ar,
Metiam mais um lento calafrio
Na tristeza indizível do lugar.

E o louco: — Sinto o odor de algas da praia:
E vem do fundo deste campo um ruído,
Como de um mar por brisas revolvido,
Antes que o Sul mais forte à noite caia:
Agora a vaga raiva e se ergue, e apruma,
Trepando em vão a bronca penedia,
E numa rapidíssima agonia,
Há de cair em turbilhões de espuma. —

E então tornava o louco a perguntar:
— Se lá na extrema se estendia o mar?...
A praia é branca? Há conchas de ouro nela?
O alvo tapete de mimosa areia
Jamais poluiu de mortos a procela:
Olhem: quando Ela sobre o chão passeia,
O chão canta, o chão ri, o chão gorjeia,
O chão... parece que Ela o diviniza;
Cintila, como um céu, o chão que pisa,
Em cada grão de pedra um, sol ateia... —

Quando voltava o povo, a dor no rosto, 
Limpando o pó dos pés e o suor da fronte,
O dia se afundava no horizonte,
Erguia-se o luar do lado oposto:
O louco era mais pálido somente,
Como folha por cima da corrente,
Trêmulo, e frio, — e desvairado o olhar,
Sentado à pedra do degrau da porta,
Dizendo a todos: — Estaria morta?
Por que a deixam na barca e só no mar?... —