Rolam sem luz, estrelas desmaiadas,
Pobres princesas no aflitivo exílio,
Já sem as sombras que projeta o cílio
Franjado e grande as faces desbotadas.

De larva imunda esquálidas falenas
Destoucadas de frescas primaveras,
Têm o morno desdém das bestas-feras,
Que nem já os grilhões mordem apenas.

Descem dos lábios, pelas gastas linhas
Do rosto, uns risos, que parecem antes
As sombras mortas dos sorrisos de antes,
Quando elas tinham corte e eram rainhas.

Passaram, como em violento atrito
Entre as rodas de ferro da desgraça,
Assim como desfeito em voltas passa
Entre o ferro, que talha, o monólito.

O que é cada falena impura agora,
Sem luz nos olhos, sem pudor na fronte?
Sol que passou a linha do horizonte,
Pobre cadáver de formosa aurora.

Não as desprezem, não. — Foram pedaços
De mármore gentil esperdiçados,
Podendo ser em deuses trabalhados,
Ou para catedrais, ou régios paços,

Mas que o capricho do escultor numa hora
Fez hidras, fez leões, e fez serpentes,
E soltou-os esplêndidos, frementes
Sobre o mundo, que as beija, e que as devora.

Tu, austero filósofo, o que queres?
Não vês que o mundo as faz e as repudia?
E o sol, que te acalenta, as alumia,
E Deus quer bem as crianças e as mulheres?

Nasceram dóceis, virginais e belas:
A miséria do berço as pôs em terra,
As asas no seu lodo aperta, encerra...
Ai! pudessem fugir... iriam nelas.

Lodo por lodo, o lodo mais brilhante,
Cheio de aroma embriagador e festas,
De noites mornas e amorosas sestas,
Longas ânsias de amor em breve instante;

Nas taças cheias de licor que embriaga,
E adormece a razão e o amor acorda,
Que em doidos sonhos de prazer transborda,
E com mãos de cetim nossa alma afaga:

Deixaram aí as asas penduradas,
De infindas bacanais na louca cena:
Aí foram perdendo pena e pena,
E o rico véu das ilusões douradas.

Morrei bem cedo, ó mortas formosuras:
Morrei... morrei bem cedo: — entre os destroços
De vosso corpo surgirão os ossos
Brancos, bem como os das Vestais mais puras.

Deus, que perdoa os hórridos delitos,
Talvez vos dê no céu novos altares,
Vós, que andais pela terra e ides milhares 
Esmigalhadas, como monólitos...