O mar!... o mar!... o mar!...a arena das procelas,
Onde o tufão sacode as rábidas lufadas,
Onde o raio revolve as eternas querelas,
Onde respondem logo as vagas convulsadas,
Onde as asas se veem das grandes brancas velas
Voar, como de uma ave as penas arrancadas.

O mar!... o mar!... o mar!... a lágrima profunda
Caída pelos céus dos cílios do infinito,
Que dois terços da terra abraça, aperta, inunda
Com seu tremendo, rouco e impetuoso grito;
Lágrima enorme, amarga, irrequieta, iracunda,
Dentro de um vaso de montanhas de granito.

O mar! quem o não ama? o mar! quem o não teme?
Quando sacode a juba inflamada e vermelha,
Quando o seu dorso salta, encurva-se, e refreme
Retalhado a farpões de rúbida centelha,
Quando se lança após do furacão, que geme,
E a luta colossal da Águia e do Leão semelha...

Cobre-lhe o peito e a espádua azul, como mortalha,
Toda a espuma da boca horrenda escancarada:
Uma risada atroz, histérica, farfalha
Na verruga de um seixo aos ombros agarrada:
Aquela água está sempre a renovar batalha:
Quer a pugna sem fim; nunca está descansada.

De um deus irado, um deus vencido e em desespero
Caiu um olho e toda aquela água sombria
Na sabulosa face a arder do mundo inteiro,
Antes dela encontrar seu leito de agonia;
E inda convulsa vivo o olho do guerreiro,
Como que irado contra o deus que o arrancaria. 

Mas esse mar imenso, esse mar que domina
De um polo a outro, e a terra enleia nos seus braços:
Esse mar, que soluça aos pés de uma colina,
E arremessa-se aos sóis, e atira-se aos espaços,
Que declinar vê tudo, e que jamais declina,
Que aos Impérios dá vida, e engole-os aos pedaços:

Esse mar que recorda um longo sofrimento,
Dos bulcões lacerado, assim como um precito,
Dos deuses fulminado, açoitado do vento,
Maldito pela dor, pelas trevas maldito,
Cabe em terra, onde esconde a lágrima e o tormento.
E a minha? a minha só conter pode o infinito!