Saí de casa triste e em desalinho,
A alma inquieta e turva, o olhar sombrio;
E, como sai de um bosque escuro um rio,
Fui, levando as imagens do caminho.

Anda em vaivém, na faina, muita gente:
Abre um e outro com força uma janela;
E eu vou, na direção da casa dela,
Morno, alheado, absorto, inconsciente.

Passa em farrapos um rapaz robusto,
Retalhando uma música divina,
O sol festeja-o, ri-se, e o ilumina,
Como a um anjo em frontão de templo augusto.

Dança um macaco aos sons de um realejo;
Tocam um piano, em cima, num sobrado;
Um cavaleiro, a trote acelerado
Corre; as pedras faíscam num lampejo.

Andemos — Eis o oceano em maré cheia!
Como cintila essa esmeralda imensa!
Ninguém sorri melhor, murmura e pensa,
Quando lambe o estendal da branca areia. 

Pensa, medita, e ri-se, e aquele riso
De tigre se desfolha em branca espuma,
E enrosca as vagas todas uma a uma,
Como a cobra falaz do paraíso.

Parece riso cínico o que vejo
Nessa cintilação do mar sereno;
Bebo irritante, aspérrimo veneno
Na ironia do seu tépido beijo.

Um grande barco vai soprando o fumo
Pela ardósia do mar azul e inquieto;
E num novelo artístico e correto
Está o vapor o céu subindo a prumo.

Aquela quietação tira-me a calma;
E esse zunzum das rodas volteando
Parece em mim arremessar, zombando,
Todo o seu estridor dentro em minha alma.

É belo o céu, lavado e deslumbrante,
Úmido, largo, imenso e luminoso;
0 sol no centro em trêmulo repouso,
Como num aro lúcido diamante.

Oh! se o céu fosse menos azulado!
Se uma nuvem cobrisse o sol agora!
Não sei por que minha alma geme e chora,
E só ouço risadas ao meu lado!...

Algumas flores, que estou vendo abertas,
Nos jardins, que há em frente a algumas casas,
No mesmo lume, ó céu, em que te abrasas,
Unem-se, como em solidões desertas.

E eu que as vira até ali tão pudibundas!
Que as brancuras do lírio amava tanto! 
A ninguém sabem já ter dó no pranto,
Quando de luz e amor, sol, as inundas!

Hei de chegar assim a passo lento
Até a sua habitação querida,
Tudo cheio de luz, de amor, de vida,
E eu só com meu sombrio pensamento!

E eu só com esta noite de tristeza
Ante a galhofa e o rir, e o amor de tudo;
E vendo bronco, curvo, opaco, mudo,
Vestida em festa, (insana!) a natureza...

Porque ela sabe por quem vivo todo,
E por que dentro em mim há noite escura:
Porque lá dentro anima-se e fulgura
A estrela das visões de um pobre doido.

Por isso tudo mostra essa ironia...
Zombam... até que junto dela chego:
Mas se o olhar meu profundo, doce e meigo
Não lhe diz meu amor, quem lhe diria?

Chego: aperta-me a mão alegremente:
Ri-se, graceja, fala, canta, voa,
(Crê-se, se anda), é chã, é meiga, é boa:
Mas o amor, que lhe tenho, ela o não sente.

Por isso ri-se: e nisso anda o gracejo,
Que eu vejo e sinto em toda a natureza:
Ó minha funda noite de tristeza,
Só pode ela apagar-te à luz de um beijo.

O amor agita o céu, a terra, o inferno.
O amor vive num sol, num grão, num brilho;
E eu que apenas do amor também sou filho,
Vivo e morro de amor, ó Deus eterno. 

O amor prende-se a tudo, em tudo brota,
Num musgo, numa célula, num ninho:
Estou louco de amor, mas não sozinho!
Será que o amor foi sempre um deus idiota?!...