Podes não ter um único sorriso,
Que se desprenda do teu lábio puro.
E, como um astro, que atravessa o escuro
Da noite, que me cerca, e cobre, e piso,

Vir até mim; eu creio: — isso que importa?
Também no chão prostrado, inda criança,
Rezava à Virgem, sem ter esperança
De vê-la menos santa e menos morta.

O órgão soava: de ouro e argentaria
Vestido o padre, o incenso lado a lado
Do altar lançava, em júbilo arroubado.
Tinha o seu porte lânguido maria.

Vinham beijar-lhe os pés meio encobertos
No seu manto estrelado, e as mãos delgadas
Sobre o sangue dos seus seios abertos,
Apertando por cima as sete espadas.

Rezava o povo a sua ladainha:
Chamavam-na de estrela matutina,
Torre ebúrnea, das Virgens a rainha,
Áurea porta do céu e Mãe Divina.

Batia o peito toda aquela gente:
A igreja tinha a arder milhões de velas,
Que todas refletiam brandamente
Na palidez de suas faces belas.

Em cada candelabro, em cada palma
As velas respondiam num som brando,
Todas cheias de lágrimas, chorando,
Como se elas tivessem também alma,

Como se a mesma fé as dominasse;
E a tristeza da luz em todo o templo,
Parecia estar dando aos fiéis o exemplo,
Espelhando a ima dor na dor da face.

Sobre o altar-mor à cruz pregado o Cristo;
O povo em prece enchendo toda a nave;
E do órgão a surda voz metia nisto
A nota excelsa, misteriosa e grave.

O incenso em rolo tinha no seu manto
A magia do espaço umbroso e augusto:
O céu nele descia a cada pranto, 
Nele uma alma subia a cada susto.

E quem não teme o Deus que apaga o riso,
Que solta o vento, que enfurece o oceano,
Que, a qualquer falta nossa, ou erro, ou engano
Nos fecha para sempre o paraíso?

Que criou o lugar onde os precitos
Torcem-se em chamas e rangendo os dentes,
E ouvem passar a voz dos infinitos,
E a eternidade alegre dos contentes;

Onde lhes vem a música distante,
Como eco tênue de perene orgia;
E tudo quanto a escorço pintou Dante
É como sombra descorada e fria...

Tempos de fé: os corações tremiam
Convulsos de umas hórridas ideias,
E dos olhos as lágrimas caíam
Como a água de taças muito cheias.

Pediam-lhe perdão dos seus pecados,
Que ELA lhes desse a sombra de um sorriso,
E que depois de mortos e enterrados
Os levasse consigo ao paraíso.

Que há na terra que um crime enfim não seja?
Vai-se direito facilmente ao inferno:
Não há carinho humano e olhar mais terno
Que não mereça a maldição da Igreja.

E a Virgem não mudava a cor do gesto;
E, no meio do incenso, que a envolvia,
Todos nela esperavam, sem de resto
Saber nunca o que enfim Ela faria.

***

Do seu culto também eu tenho o zelo,
Minha esperança e único conforto;
E assim leva-me ao céu, depois de morto,
Se é que depois de morto eu posso tê-lo.

Também espero em ti: à tua planta
Todo o meu ser num longo beijo resta:
Embora faças como a Virgem Santa
Quando eu via rezar na sua festa.

Mas... pensa alguém que dúvidas oculto
Naquela fé ardente, viva, e pura,
Que deve ter a humilde criatura
Na Santa, origem do seu grande culto?

Se a outra não voltava a face linda,
Abrasada na luz em que me abraso,
Não pode esta voltar-me o rosto acaso,
Sendo melhor, sendo mais santa ainda?...