I saw thee weep.
Byron — Hebrew Melodies

Sabei, astros gentis, sabei, lindas auroras,
Sabei que ELA chorou!
Ó dor, pois ao teu dente agudo, em poucas horas,
Seu mármore estalou?

Dos longos cílios seus, secos a alguns instantes,
Vi pérolas rolar:
Eram seus olhos dois lagos cheios, brilhantes
No rosto a transbordar.

Tremiam-lhe, no choro, os beiços de criança:
Rubro o esbelto nariz,
Dava sombras de incêndio à face... Esta mudança
Em ti, fui eu que a fiz?

Porque ELA sabe que é assim inda mais bela,
Ou por orgulho enfim,
Foi com certo furor, ao vão de uma janela,
Chorar, longe de mim.

Mas se estendo meu braço aflito, e consolá-la
Procuro, foge... vai...
Que pode o argueiro contra o raio, quando estala,
Ziguezagueia e cai?

Logo depois voltou com rosto de viúva,
Seria, triste, porém: 
Trazia, como um céu lavado pela chuva,
A face de cecém.

E vinha, como sai a aurora da orvalhada,
Das ondas o luar:
E vinha, como sai do lago, a haste inclinada.
A flor do nenúfar...

Eu, que adoro esta esfinge, eu, que amo este segredo,
Vendo-a um dia a chorar,
Fiquei, como quem fica olhando absorto e quedo,
A imensidão do mar.

Fiquei, como quem vê, quando ninguém o espera
O abismo aos pés, no chão...
O mármore partira, e tinha uma cratera,
E o pranto de um vulcão...

Oh! fui eu o Moisés que levantou a vara,
E o penedo tocou:
O penedo cedeu: a água arrebentara...
Essa mulher chorou!...

Estas lágrimas de hoje, as lágrimas choradas
Perder-se-iam no ar,
Como no céu da noite as estrelas douradas,
Que se ergueram do mar?

Não... não... — Eu as colhi, em meu amor envoltas,
Céu em pedaços... — não!...
Não se perderam, não; — aqui as tenho soltas
Dentro em meu coração

E a lágrima gentil, que cada cílio embala,
Choraria por mim?
Chorarias por mim, ó lágrima? Sim! fala:
Dize, ó lágrima: sim?... 

Deuses, se ELA chorou por mim, eu desafio
Vosso eterno poder:
De vós, de vossos céus, de vossos mundos, — rio:
Não troco o meu prazer.

Ela chorou por mim!... Ó oceano, que choras,
Tormenta, que passou,
Sóis, que passais, sabei que a fiz chorar: auroras,
ELA por mim chorou!

Ser chorado por ELA!... Oh! quem já foi chorado
Assim com tanta dor?
Eu sou, ó Madalena, o Cristo consolado
Em lágrimas de amor.

Ó natureza, ó Deus, ó deuses; — Natureza,
Ó flanco maternal,
Que a lágrima produz, que produz a beleza,
Luz, que colora o vale,

Eu te agradeço o ter nascido do teu seio:
Eu sei o que é gozar:
De dentro dela mesmo a lágrima me veio,
Como o sol vem do mar.

Ó primavera, eu tenho em mim as tuas flores:
Ó sol, ó céu, ouvi:
ELA chorou por mim: deuses, das suas dores
O meu amor teci.

Eu sei que ELA me ama: — ama-me, eu sei agora...
Quando chega o arrebol,
É o grande cisne branco asas abrindo, e chora...
E a festa aí vem do sol.