Não vês naquela mão a irritabilidade
De um pássaro gentil, nervoso e fugitivo?
Recua, e voa, e foge à possibilidade
De tocá-lo de leve um dedo convulsivo.

Como se encrespa um lago e as águas amarrota
A pontinha de uma asa ali passando acaso,
Fica a gente a cismar, e fundamente nota
Que crispações verá naquele humano vaso...

O que se passa em todo aquele ser convulso?
Que estrelas encherão o abismo de sua alma?
Quem poderá tomar-lhe o rebater do pulso?
Quem pode atravessar sua aparente calma?

Descer de todo o ser à profundeza imensa,
Ir do espírito ao fundo, — oceano que ressona, —
E ver o que ele sente, e sofre, e goza, e pensa:
Trazer do fundo mar qualquer coral à tona...

Qualquer coral, que mostre o que em si vive e sente,
Qualquer coral, que traga à luz o seu segredo,
E diga, quando quero a mão tocar somente,
Se acaso aquilo é ódio, ou amor, ou tédio, ou medo?!...