De ver-te, pois, sabe disto,
Não perco nenhum ensejo,
Que te vejo, e que te hei visto,
Mesmo quando não te vejo.

Sou como um cego, e perdido
Na densa treva, em que luto,
Em cada rumor escuto
O ranger do teu vestido.

Em cada pedra que piso,
Levanto a fronte aos espaços,
E ouço o bater dos teus passos, 
E a tua sombra diviso.

Se o vento os perfumes toma
Dos jardins, onde transito,
É do teu quarto o esquisito,
O doce, o suave aroma.

Se a brisa o ruído exala
Das asas de vozes cheias,
Ouço as frases que gorjeias,
Quando a tua boca fala.

Se alguém ri, ouço o teu riso:
Nele cantar o céu ouço
Num auroral alvoroço
No seio de um paraíso.

Se palpo a tez melindrosa
De uma criança, decerto
És tu, que estás ali perto...
Foi tua mão cetinosa.

No dia em que te não vejo,
Ando a ver-te em toda parte,
Dá-me amor luz para olhar-te,
Corta a distância o desejo.

Não tenho fome, se penso
No meio de densa treva,
Que me surges, como Eva
Ao sol de um Éden imenso.

Nem tenho sede, se creio
Beber em jarra de prata
Todo o leite, e toda a nata,
Que há na pele do teu seio.

Não durmo, nem tenho sono
Se creio ver-te suspensa,
Como rainha num trono,
Na turba, que se condensa.

Vê que sinto, ao ter-te perto,
Ouvindo mesmo os teus passos!
Quando te enleio em meus braços,
É todo o céu que eu aperto...