Um dia ouvi... (abismo eterno, onde caído
Um século jaz, depois de ter ouvido
Essa música doce, etérea, inebriante...)
Nos meus cabelos o teu lábio palpitante,
Como as asas de uma ave a tiritar medrosa,
Depor um beijo... ouvi!... Tua boca cor de rosa,
Ninho de colibri, ninho do teu sorriso,
Que tem mais esplendor que a ave do paraíso,
Tua boca, mulher, pousou nos meus cabelos.
Um céu!... Era demais! Dobrei os meus joelhos,
Vacilei ao luzir dessas constelações,
Que me vinham buscar em loucos turbilhões!
E eu tinha ao mesmo tempo o severo semblante
De Anteu, que vai cair, ou de esmagado Atlante.
Em torno a mim havia as serpes. Laocoonte.
Era Tifeu descendo o céu, e monte e monte
Despenhados sobre ele, após o infando crime:
Sentia a enormidade incógnita, que oprime;
De um excesso de luz estava a fronte ferida;
Era um deslumbramento imenso a minha vida.
Rolava por cairéis de abismos sem escolhos,
Com abismos nos pés, escuridões nos olhos:
Esmagava-me o céu descido do seu beijo:
Nunca até ele houvera ensaiado um desejo,
Quando vi de repente aquela chuva toda
De astros, que vinham nele a iluminar-me em roda...
E foi ele tão leve, e trêmulo, e queixoso,
(Que infinito há num beijo, ai! num beijo e seu gozo!)
Como o doce ranger das estreladas portas
Na noite silenciosa, em fundas horas mortas,
Quando pela calada a alma absorta cisma,
E olhando o azul ao suave e diáfano prisma
De um sonho alado crê, que um anjo, que resume
Todo o amor, que há no céu, todo o esplendor da aurora,
Vem ver-nos, estendendo a áurea fronte de fora,
Fugindo após, lanceado o coração de ciúme.