A sua casa é como escrínio rutilante
De joia de valor:
É, como em grande bosque, um pássaro gigante,
Onde se ouve cantar lá dentro a todo o instante
Um cântico de amor.

A sua casa branca é como oculto ninho
Dentro de um madrigal,
Na copa do arvoredo, à beira do caminho,
Onde, como um chuveiro, a voz de um passarinho
Cai sobre todo o val.

Sua casa é como um riso,
Não tem musgos de tristeza;
Adivinha-se a beleza
Aí no seu pedestal;
As trepadeiras, que enlaçam
De sua alcova a janela,
Não sei que espreitam por ela... 
Mas vê-las, me fazem mal.

Oh! pudera eu subir, como elas, desatados
Meus braços estender,
Para vê-la dormir no leito sem cuidados,
E as asas brancas ver dos anjos desvairados
A alcova toda encher.

Ir de pé ante pé, e contemplar seu rosto.
Ver ainda em botão
Dos seus lábios sair um sorriso composto
Dos sonhos da inocência, e perfumes de agosto,
E rosais de verão.

Foi uma vez uma estrela,
No puro azul cintilava,
Coroada de ouro ela entrava
Por sua alcova: — tremi!
Eu erguia as mãos convulsas,
E embalde ao céu as erguia!
Foi uma noite de orgia!...
Ambas beijavam-se: eu vi.

Oh! poder que eu pudesse! O mundo atravessara,
Como quem entra o céu,
Para vê-la de pé, como uma deusa em ara,
Da alâmpada ao clarão, em cujo meio para,
Como deusa em troféu.

Ver cada estrela, que lhe entra pela vidraça
Devagar... devagar:
Cada estrela que vem, cada estrela que passa,
E nos bracinhos de ouro a aperta, a cerca, a enlaça,
Sem fazê-la acordar.

Surgia a aurora: entre os dedos
Alvas rosas desfolhava,
E as loucas brisas soltava
Dos arregaços do véu:
No peitoril da janela
Vi pousar um passarinho:
— Ave, segue teu caminho...
Vai teu caminho do céu.

Não venhas perturbar-lhe o sono, ó linda aurora,
Não a despertes, sol:
Tuas lágrimas de ouro ela as merece: — chora!
Não perto dela, não: lamenta-te lá fora:
Não sobre o seu lençol. —

Ela está no seu leito ainda seminua;
Desnus os pés gentis,
Dobrada sobre si, como encurvada lua
De nuvem negra à beira: a coma lhe flutua
Às espáduas de lis.

Ah! se te ergueras! no meio
De tua cheirosa alcova,
Vira-te acaso Canova,
Marmórea estátua gentil,
— Paros com vida, — decerto
Num brusco assomo quebrara
Quanta estátua ele rolara
De cima do seu buril.

Ei-la: acordou enfim: a brisa que cicia
Cheirosa dos vergéis,
O sol, que lhe enche as mãos de pérolas do dia.
O prazer, que gorjeia endechas de alegria,
Tudo beija os seus pés.

Tudo nela alvorou: tudo enfim se levanta,
Com ela tudo riu...
Com ela tudo riu, com ela tudo canta,
E ela chega à janela, assim como uma santa,
Que do nicho saiu;

Ei-la! chegou à janela
No meio das trepadeiras:
A toda flor, sim! tu cheiras:
Cheiras, sim! a toda flor:
Da moldura, que te envolve,
Tu aproveitas o ensejo,
Para dar à boca o beijo
De tudo que sente amor.

Nova estrela a surgir no vasto azul profundo,
Nova constelação
Pregada em novo céu, cobrindo um novo mundo;
Uma pérola nova arrancada do fundo
De um mar em ignição;

Não alvoroça tanto, e não surpreende um grito
De espanto e de terror,
Como ao que teve acaso em ti seus olhos fito,
Como ao que viu nos teus a imagem do infinito,
No infinito do amor.

De tarde, quando o sol volta,
E para o mar se debruça,
A tua fronte soluça,
O teu olhar sombras tem;
Mas o sol, que leva o dia,
Não carrega os teus encantos:
Por que te salpicam prantos,
Como orvalhos à cecém?

Ó deusa, essa tristeza eleva-te num plinto:
É mesmo o teu altar: —
Dela o teu pensamento ir para azuis eu sinto,
Dela se erguem teus pés sobre este labirinto: 
O pensar é chorar...

Eis porque vejo em ti mais que a mulher querida,
Mais que o meu sonho quer:
Tu és a fé, que crê; — o sábio, que duvida:
Tu és todo o luzir e todo o horror da vida:
Amo-te assim, mulher.