A. DE MUSSET

(Ao Dr. Luiz Barboza)

Era bella, si a noite adormecida
No àdyto sombrio da capella,
Onde lhe fez o leito Miguel Angelo,
Pode, immovel, ser bella.

Era boa, si basta que, passando,
A mão abra-se e dê, sem que em verdade
Deus nada veja ou diga: si é esmola
Ouro sem caridade.

Pensava, si somente o vão murmúrio
De harmonioso, de suave accento,
Como um arroio que sussurra e geme,
Denota o pensamento.

Orava, si é verdade que dous olhos
Bellos, ora fictando-se no chão,
E ora para o céu se levantando,
Se chamam oração.

Ella houvera sorrido, si a flôrinha,
Que não desabrochou nunca, pudesse
A frescura, uma vez, se abrir, ao vento,
Que a beija, passa e esquece.

Ella houvera chorado, si algum dia.
Friamente levada ao peito seu.
Sentisse sua mão na argila humana
Os orvalhos do céu.

Ella teria amado, si o orgulho,
Egual a essa luz que inútil mão
Juncto a um tumulo accende, não guardasse-lhe
O esteril coração.

Está morta, sem nunca ter vivido,
Esteve só fingindo que viveu.
De suas mãos cahiu emfim o livro
- Em que ella nada leu.

1871.