(ao meu amigo JACINTHO P. DA SILVA FILHO )

Na longa e negra noite em que minh’alma, a pobre,
Geme lugubremente, em que a saudade chora,
Rompe uma luz incerta e que mal se descobre,
Um crepúsculo ainda, uns sorrisos de aurora.

Ao doce alvorecer das luzes matutinas,
Povôa-se a soidão e a aridez se inflora.
Não sei que primavera alastra de boninas
O campo; e aves mil estão saudando a aurora.

Luminosa esperança ! aos seus clarões risonhos
A crença resuscita, e doida canta agora !
Não sei que amor immenso enche de vivos sonhos
A alma inteira. Oh ! salve, abençoada aurora !

Minh’alma, patria azul do sonho e da esperança,
Exila 0 desalento. . . ei-lo já mar em fo ra .. .
Purissimo se arqueia um céu todo bonança,
Alumiado áluz de uma esplendente aurora !

Oh hymnos de minh’alma, aves entorpecidas,
A noite escura e longa e fria foi-se embora;
E nado o sol que anima as azas entanguidas ;
Voae ! cantae no espaço o jubileu da aurora !

Oh! graças,Deus, meu Deus! eu creio em ti,eu creio!
Minh alma se ajoelha, e te agradece e adora !
Dás um balsamo, o amor, ao magoado seio,
E apóz a negra noite ergues no espaço a aurora !

S. Paulo, Maio de 1872