Quando a fogueira do poente arde
E começa um torpor suave e lento,
Embebe-se tarnbem o pensamento
Na tristeza monótona da tarde.

Esbatem-se os contornos; quanto existe
Mostra faces suaves, esfumadas. . .
Tudo amenisa-se... as paixões veladas
Tornam-se calmas como a hora triste.

Como os passaros vôam mollemente
Demandando dos ninhos o repouso,
Passai os d'alma, vão buscando o pouso
Os pensamentos, no saudoso ambiente.

O pouso hospitaleiro que, á distancia,
Aos olhos nos occulta a sina, austera,
Aonde a esposa de nossa alma espera,
Onde passou-se a descuidosa infancia.

Onde, nas horas em que a noite desce.
De longas sombras inundando as almas,
Nossa mãe, nossa irmã, com as frontes calmas,
Erguem por nós affectuosa prece.

Branda melancholia nos invade
Com a doçura de um balsamo divino...
Oh dona de minh'alma e meu destino,
Eu lembro-me de ti ... com que saudade !

S. Paulo, Ponte Grande, 1873.