( A ALFREDO BRANDÃO )

Chamava-se Idalina, e tinha vinte e um annos.
Era alva, esbelta, loira .. entre mulher e fada.
Diziam que era estranha aos affectos humanos,
Pois nunca a viram rir e nem chorar de nada.

Si désse para o mal, enchia dous infernos
De réprobos. Também, si désse para amar,
Que d’almas para o céu ! Mas os gelos eternos
Cobriam-lhe a alma inteira, a sua alma polar.

Era Idalina assim. Poetas em manada
Sagravam-lhe do estro a luz brilhante e fátua...
Mas a poesia aos pés morria-lhe esmaiada
Como alvores de lua em pedestal de estatua.

Dir-se-hia que Deus, vendo-a bella, estupenda,
E não querendo dar ao mundo a perfeição.
Ao invez do que fez o Prometheu da lenda,
Pôz estatua a mulher: tirou-lhe o coração.

Amor, intimo hymno, harmonia divina.
Musica d’anjos n’alma, eólio murmúrio.
Porque não lhe animaste a fórma peregrina?
Porque lhe não encheste o coração vasio?

Si pudesse um momento aquella creatura, 
Por milagre de Deus, amar na terra álguem,
O amôr que ella inspirasse era a extrema loucura,
Pois ser amado d’ella era o supremo bem !

Muito peito adorou-a em sancto amor acceso,
Mas a chamma voraz se extinguia ao despreso.
Mais de uma vida em flor por ella se perdeu
Em negro desespero ; e nem se commoveu.

Elle era bello e loiro, um nobre cavalheiro
De aspecto senhoril e modo sobranceiro.
Era sceptico e rico ; amantes, tinha-as mil.
Tinha um limpido olhar sereno e varonil,
Olhar de rei, olhar de fria magestade.
Formoso como a fé, triste como a saudade,
Também nunca sorria. Aqui tendes Raul.

Era uma linda tarde ; o céu estava azul
Como uns olhos de ingleza. Oh ! à tarde, o Passeio
Como fica bonito ! Estava mesmo cheio
No dia em que isto foi. Raul estava lá.
Idalina lá estava : aonde o homem está,
’Stá o perigo, diz-se, e tudo a crer me inclina.

Estava, como eu disse, uma tarde divina.
No terraço, Raul, já contemplado o mar,
Voltava, quando viu Idalina passar.
Olharam-se. No olhar existe um magnetismo.
O olhar de uma mulher tem sempre um quê de abysmo,
Eu não sei o que foi; o certo é que depois
Em um baile, essa noite, encontraram-se os dois.

Dizia-se mais tarde, a uma voz, na cidade,
Que partira Raul, depois da f'licidade
Maior que ja na terra um homem pôde ter.
Perdera-se Idalina. Eu não podia crer.
Mas assim foi. Um dia, aquella paixão toda
Abafada insurgiu-se : amou como uma douda !
Mas a um homem sem fé, que porisso a perdeu.
E sabem o que fez a insensivel ? Morreu.

S. Paulo, 1873.