Anjos, ouvi a narração da luta
Contra a maldade e astucia baixa e bruta
E o sublime triunfo nunca visto
Para glória e louvor de Jesus Cristo.
E que também retumbe nó universo,
Depois de derrotado o arcanjo adverso,
Das armas e das tubas o ruído,
Saudando o vencedor nunca vencido,
E em toda parte celebrado seja
Miguel, invulnerável na peleja.
Já no terreno próprio e bem-disposto
Estão os combatentes rosto a rosto,
Quando ao som da trombeta que se espera,
Lúcifer salta qual veloz pantera
E, andando em roda, com a fina ponta
A Miguel ameaça que traz prontaA espada e juntamente pronto o escudo
E sem mover-se em pé, severo e mudo,
Somente os olhos do adversário fita,
Buscando ocasião que lhe permitia
Dar um seguro passo mais avante,
Na mão direita o gladio rutilante.
Em vão Lúcifer tenta desarmá-lo,
Miguel do medo não conhece o abalo,
Mas antes em coragem vai crescendo,
Cada vez mais feroz e metuendo.
Qual áfrico leão soberbo e forte
Irosamente espalha entorno a morte
E, erguendo aos céus o formidável uivo,
Erriça todo o pelo crespo e ruivo
E logo se arremessa sem detença,
Até que rompa, fira, abata é vença:
Tal o arcanjo belígero e robusto
Com ardente olhar infunde frio susto
No inimigo que, vendo força tanta,
Três vezes cai, três vezes se levanta
E por fim em letárgico repouso
Jaz aos pés de Miguel vitorioso.