GABRIEL
Desde o alto céu até, à baixa terra
Nenhuma criatura guarda e encerra
Tanta virtude e encanto nunca visto
Como a Virgem que deu à luz o Cristo.
Filha do Pai e Mãe do Filho e Esposa
Do Espírito que nela se repousa,
Das três Pessoas derivando a graça
Que nunca diminui nem nunca passa.
Como a violeta amável e modesta
À verde alfombra os seus matizes presta
Quase que sem querer, mas um perfume
Tão suave e sutil em si resume,
Que outra cheirosa flor a não supera
De quantas faz brotar a primavera:
E como a rosa que, d'orvalho cheia,
Inclina a fronte e ainda se receia
D'olhar o sol que no cerúleo espaço
Espalha os raios d'ouro não escasso,
E, escondida entre a mole e imóvel erva,
No seio as raras pérolas conserva:
Desta maneira a Esposa, Mãe e Filha
Ante a santa Trindade surge e brilha.

CORO
E qual do girassol a flor estranha
Que, quando o louro dia as terras banha,
Os rubros resplendores vai seguindo
E à hora em que descem no oceano infindo,
Com sentimento e com amargura chora,
Até que nasça novamente a aurora:
Desta arte o coração, em mágoa posto,
Procura o brilho do formoso rosto
E a alma se torna dócil e tranquila,
Quando o sereno olhar no céu cintila.
E qual a cotovia em voo brando
Estende as asas pelo espaço, quando
O clarão da alva estrela matutina
As fugitivas nuvens ilumina,
E, toda cheia d'alegria e gozo, 
Do alto derrama um som maravilhoso:
Assim a voz queixosa a cada instante
Em mansa melodia gema e cante
E o saudoso reclamo nunca cesse
Do amor ardente que no peito cresce.
E qual o beija-flor a flor deseja
Que mais mimosa e mais melíflua seja,
E errando voa entre purpúreos cravos,
Passionárias azuis e lírios flavos,
Até que chegue ao milagroso loto
Excelso, inatingível e remoto:
Não doutro modo o afeto casto e raro
À meiga Virgem pede brando amparo
E todo se desfaz, leve e risonho,
Num admirável e inocente sonho.