Tal como quem, nutrindo uma esperança
Em meio desta vida, triste e incerta,
Dorme, iludido na ventura mansa
Que do anelado bem lhe faz oferta;
Nas no momento mesmo em que ele o alcança,
Abrindo os olhos, súbito desperta
E, perdendo o prazer doce e risonho,
Não pôde crer que tudo foi um sonho: 
Desta arte Clóris, quando não mais pinta
O que repete a fala tão sonora,
Um não sei que faz que saudades sinta,
Vendo a clara visão voar embora:
E, acabando cansada e meio-extinta,
Suspira sem querer e quase chora,
Porém, olhando logo a Lusa gente,
Vence o desgosto e ri serenamente.

Qual terno beija-flor que deixa o ninho
Com a cara consorte e filho implume,
De rosa em rosa no jardim vizinho
Colhendo o néctar, cheio de perfume;
Aias depois, revoando o passarinho
Aonde todo o amor se lhe resume,
Com os seus em paz repousa benfazeja
E dali nunca mais partir deseja:
Tal a meiga alegria vai fugindo
Da alma cândida, amável e sincera,
Mas logo torna em riso ao rosto lindo
E ao coração que ardentemente a espera;
Puro contentamento está sentindo
A gentil e mimosa Primavera,
Porque da língua lusitana sabe
Não sofrerá que a poesia acabe.

Pois nela manda o céu que, nova e nua,
A formosura helênica admiremos
E o latino vigor se restitua
Segundo a tradição que conhecemos:
Enfim a glória antiga continua
E estes maravilhosos dons supremos
A língua para si recebe e toma
Da bela Atenas e da forte Roma.

Musas, não mais! O último som derramo 
E já se apaga a flama em que me alento,
E não vos peço imarcescível ramo
Em prêmio do imortal atrevimento:
Mas dai-me sempre aquilo que mais amo,
Musas, nunca deixeis que viva isento
De branda poesia um peito brando
Que anda os vossos louvores celebrando.

E tu, suave citara canora,
De cujas cordas tiro a melodia,
Ou quando em mim uma saudade mora
Ou quando uma esperança me alivia:
Pende ao meu lado sempre como agora
Em jucundo prazer ou dor sombria,
Para que eu possa leda ou tristemente
Dizer em verso tudo que a alma sente.

E vós que vã cobiça não condena
A uma perpetua, dura e áspera luta,
Vós que a filha de Zeus, Palas Atena,
No templo consagrou da arte impoluta,
Vinde comigo à Arcádia doce e amena
Onde continua música se escuta,
Vinde viver sem mágoas e sem danos,
Claríssimos engenhos soberanos.

E olha, coração meu, vê quanto gozas,
Quando o sublime canto se traslada;
Nascem louros ainda, nascem rosas
Para trazer a fronte coroada;
E, porque Apolo e as Musas amorosas
Tenham sempre na terra uma morada,
Sobre colunas dóricas levanto
Um novo Parthenon eterno e santo.