Desta arte fala o padre soberano
Que a tudo manda e ordena sabiamente,
Parte-se Poseidon irado e insano,
E a lânguida Afrodite ri contente;
Vai, pois, ilustre capitão, sem dano,
Que Zeus aos Lusos navegar consente
Aonde a Primavera enternecida
Há muito que te chama e te convida.

Vai pelo mar azul à verde terra
Tão fértil, tão fecunda e tão formosa,
Em cujo seio a natureza encerra
Tudo que o coração deseja e goza;
Em cujo bosque, vale, prado e serra
Corre um perfume d'açucena e rosa,
Em cujas grutas frescas e quietas
Hão de morar as musas e os poetas.

Disse e qual andorinha que em procura
Voa d'ameno e deleitoso clima,
Vendo uma branca vela na água pura,
Dos céus desce e lhe vem pousar em cima;
Mas em seguida pela etérea altura
Com asa mais leve a revoar se anima:
Desta arte subiu lépido e ligeiro,
Pelo caminho lácteo o mensageiro.