Caro amador, nunca houve quem te visse,
Senão tratando só do afeto puro
Que amor manda que sempre se cobice.

O mesmo bem procuras que procuro,
E em pago do teu longo sofrimento
Aqui verás pintado o teu futuro.

Ouve-me, nunca viverás isento
D'arte ou d'engenho e sempre terás na alma
Da poesia o brando sentimento.

Terás a doce avena que te acalma,
E a belicosa tuba que te anima,
Para que alcances sempiterna palma.

E voando no espaço, lá de cima
Espalharás em sonoroso canto
O que nunca se disse em verso ou rima.

Nunca te faltará do monte santo
A proteção benigna e benfazeja
Das nove musas a quem amas tento;
Que eu te prometo que o Parnaso seja
Em teu favor e desta vida escura
Evites a vulgar e vil peleja.

Sentes comigo a mesma desventura
E o mesmo gozo e, cheia de gemidos,
Na mesma língua a tua voz murmura.

Ah! nunca de mim sejam esquecidos
Os acentos da música celeste
Que vencem e arrebatam os sentidos.

E como sempre assim cantar quiseste,
Em sons ou d'amargura ou d'alegria,
Farei que o teu amor se manifeste.

E erguerás nesta vida fugidia
Um monumento como outrora os houve,
Contra que o duro tempo em vão porfia.

E embora a gente humana te não louve,
Hás de viver contente, conhecendo
Que Polínia te inspira e Apolo te ouve.