Amor me faz esperar,
Esperança me faz rir,
O riso me faz chorar,
O choro me faz sentir;
O sentir me faz sofrer,
O sofrer me causa dor,
A dor me dá um prazer
E o prazer cantos d'amor.

(MOTE)

Olha para os olhos meus,
Que os meus olhos te dirão
As penas do coração.

(GLOSA)

Tu me não ouves gemer
Em tortura e desprazer,
Mas há tristezas mortais
Neste meu peito e jamais
Deixarei de padecer.
Os sonhos, voando aos céus;
Já me disseram adeus —
E a escura mágoa sem fim,
Se ainda a não viste em mim,
Olha para os olhos meus.

Cuidados, tormentos vis
Que humana língua não diz,
Desassossego sem paz,
Tudo isto neles verás
E quanto sou infeliz.
Hás-me conhecer então
Esta dura condição;
Talvez chegues a chorar, 
Vendo o profundo pesar
Que os meus olhos te dirão.

A dor que há dentro de nós,
Às vezes é tão atroz,
Que no suplício cruel
A boca se enche de fel
E a garganta perde a voz.
Quero, pois, soltar em vão
Suspiros que na alma estão,
Porém, se falar não sei,
Nos olhos te mostrarei
As penas do coração.