CORO
O glorioso dia, hora e momento,
Quando entre violetas e boninas
A mulher pareceu ao lado do homem.
No verde prado e no cerúleo assento
Não há flores mais frescas e mais finas
Nem astros que mais docemente assomem.
Os tempos não consomem
O etéreo gozo que nasceu com ela,
Nem o pudor constante
Que às vezes se revela
No súbito rubor do almo semblante.
E em nenhuma outra parte se depara
Coisa mais linda e pura
Que a formosura — milagrosa e rara.

A luz do sol lhe beija os olhos belos
E o chão que lhe sustenta o peso brando,
Disto mais alegria ainda sente.
Com os leves e longuíssimos cabelos
O vento brinca e o rio, murmurando,
Lhe dá pérolas claras da corrente.
Porém mais fortemente
Que fogo, terra, ar e água Adão sublime
Guarda no seio o afeto
Que entende e não exprime,
Tanto é sacro, inefável e secreto.
E mais ainda faz que ele se enleve
Cada rosa que nasce
Na lisa face — entre jasmins de neve.

Ei-los que se olham e já d'onda em onda
Soa dos ternos peitos o segredo,
Ei-lo que chega, ela, porém, se esquiva;
Ei-lo que espera em vão que ela responda,
E para quase, mas um riso ledo
Faz que o contentamento lhe reviva.
Então de fugitiva
Ela se torna mais mimosa e mansa
E assim, mole e benigna,
Enlanguesce e descansa
E a amar e a ser amada se resigna.
E, como em braços do álamo a videira,
Eva com Adão forte
Beija o consorte, — meiga e lisonjeira.

Ó ditoso himeneu, ó novo encanto
Que une dois corações num só desejo
E simultaneamente acende e acalma.
Ó momento d'amor suave e santo
E mais que todos grato e benfazejo
Cuja eterna lembrança fica na alma.
A viridente palma
Dê sombra em horas plácidas e amenas
E deste campo infindo
Brotem mil açucenas
E do alto venham mil jasmins caindo.
E, ou seja em verde vale ou verde outeiro,
Cantem as flores todas
As castas bodas — do casal primeiro.