Quantas vezes choro
Sem saber por quê
E o pranto sonoro
Se ouve e não se crê.

Em nenhuma parte
Vejo mal ou bem,
Nem prazer que parte,
Nem pesar que vem.

Mas noites e dias,
Tardes e manhãs
Voam fugidias
Estas queixas vãs.

Risos sem começo,
Lágrimas sem fim:
Se tanto padeço,
Que será de mim?

Duma pena ignota
Mágoa singular
Que se sente e nota
Pelo suspirar. 

Pois, se os olhos seco
E não choro mais,
Inda se ouve um eco
De saudosos ais.

E em qualquer retiro
Destes que bem sei,
Sem querer suspiro
Onde já chorei.

Onde acharei pranto
Para tanto dó?
Ai que já não canto,
Desde que vivo só.

Mas para lamentos
Haverá razão?
Cuidados cruentos
Nunca tornarão.

Estas queixas mansas
Que espalhando estou,
São talvez lembranças
Do que já passou.

Mas a dor fugindo
Cessa e já não é;
Surge amor infindo
Com esperança e fé.

A alma se traslada,
Voa para o céu,
Doce pátria amada
De quem já sofreu.

Um anjo me guia,
Me leva e conduz
Para ver Maria,
Para ver Jesus.

Onde tudo é gozo
Que não vejo aqui,
E serei ditoso,
Já que padeci.

Onde em brando riso
Tudo se desfaz
E a dor suavizo
Em serena paz.

Onde a primavera
É meiga e gentil
E um bem que se espera,
Se transforma em mil.

Onde num desmaio
Doce e encantador
Entre abril e maio
Nasce o eterno amor.

Onde se ouve a pura
Voz celestial,
Bem como murmura
Fonte de cristal.

E a fragrância amena
Pelo espaço azul
Vence a da açucena
Nos jardins do sul.

Onde se prepara
Ao coro fiel
A mais santa e rara 
Hóstia d'Israel.

Doce manjar d'alma
Que o Senhor bendiz,
Me alenta e me acalma
E me faz feliz.

E como duma ave
Os suspiros meus
Em queixa suave
Vão aos pés de Deus.

Dos olhos sentidos
A lágrima cai,
Sobem os gemidos
Aos pés do meu Pai.

Todo me enche e invade
Lânguido prazer,
Em felicidade
Deixai-me morrer.

No mundo mesquinho
Tudo é só pesar:
Ao meu pátrio ninho
Deixai-me voar.

Onde veja o amante
E perpetuo bem
E com os anjos cante
Glória a Deus. Amém.