Era no tempo, quando a terra perde
O alvo manto de neve e a doce Flora
Adorna o bosque e esmalta o campo verde.

Nos ares se ouve a música sonora
De Progênie que lá vai, lânguida e lenta,
Tornando aonde Filomela mora.

Eis sobre o manso e livre de tormenta
Assento das nereidas saudosas
Um triunfo aos meus olhos se apresenta.

Coberto só de lírios e de rosas,
Aurifulgente carro vem trazido
Por mil pombinhas meigas e amorosas.

Nele com o ledo e trêfego Cupido,
Está Vênus; serena e sorridente
A cujo raro encanto andei rendido.

E o seu olhar se alonga no ambiente,
Como uma clara estrela matutina
Começa a cintilar suavemente.

E o seu sorriso voa na campina
Como um jasmim que docemente caia,
Quando Favônio a leve rama inclina.

E entre ondas de perfume que se espraia,
Vêm as Graças gentis em brando adejo: 
Eufrosina e Tália com Agláia.

E as horas imortais admiro e vejo
Diceia, Eunômia e Irene com a formosa
Musa que ainda acende o meu desejo.

Esta é quem só d'amores vive e goza,
Esta é quem faz que eu só d'Amores cante
Em melodia doce e dolorosa.