Fui pelo mar em fora. A recurva trirreme
Ampla, em prata, estendendo um rastilho de espuma,
Leva, léguas além, a áurea canção que geme
Da harpa que canta e ri nas cordas, uma a uma.

Vibra sempre a canção; adelgaça-se a bruma;
Surge a lua, e ao luar, a superfície treme
Do mar que a essa canção em colo a vaga apruma,
Extreme de paixões, de cóleras extreme.

Tão sugestivo é o canto, e entre as vagas do oceano
Os golfins e dragões sorvem-lhe o eco em tal dose,
Que pouco a pouco vão tomando o aspecto humano.

Súbito, cessa o canto e as sereias em rima,
Mudas pasmam de ver esta metamorfose:
— Monstros do ventre abaixo e deusas ventre acima.