Naqueles olhos onde os astros moram
Trocando o céu que têm por céu mais belo,
A sombra negra da paixão de Otelo
Passa rugindo com um punhal na mão.
Luiz Delfino

...les yeux s’agrandiront, tant ils auront vu des choses éffrayantes; le
travail de la vie, — et de quelle vie! — dégagera de la vierge timide une
femme de passion et de combat, consciente de sa supériorité, de son doux et
sombre pouvoir pour l’amor et pour la mort.
Eugene Melchior de Vogué - Calherine Sforza 

I
Esse olhar cuja luz, nesta elegia, canto;
Que, apesar de funéreo, aviva um peito exausto,
Encerra para mim o extraordinário encanto
De um palácio que dorme à sombra do seu fausto.

Olhar que mesmo enxuto a outro olhar mostra o pranto
E que passa por nós como um prenuncio infausto.
Dentro da orla da cor roxo-azul de agapanto.
Que o circunda, ele acende um fogo de holocausto.
Frio é sempre esse olhar imprevisto de orago
Que profetiza a morte e a vida nos consente
Dentro do seu negror amortecido e vago.

Fátuas fulgurações o animam de repente;
Mas toda a luz que espalha aquele olhar aziago
É o sinistro clarão de uma câmara ardente.

II
Olhos feitos de treva e feitos de martírio,
Macerados ao fundo augura! das olheiras,
Surgem dessa brancura imaculado lírio
Que a sombra clausural põe na face das freiras.

Olhos! vosso fulgor é o fulgor do delírio;
É o supremo clarão das Horas-Derradeiras.
— Luz mortuária e final, a agonizar num círio,
Alumiando um tendal de tíbias e caveiras. —

Sois do fel do viver a embebedora esponja;
Cantam dentro de vós os responsos e os salmos
De um mundo onde não há nem traição nem lisonja.

E a dona angelical, desses dois olhos calmos,
Como que nos faz ir, volvendo o olhar de monja,
Em doce romaria ao vai dos Sete-Palmos.

III
Lê-se no seu olhar o derradeiro tomo
De um estranho missal feito de ritos vários,
E ante o qual as paixões e os sentidos eu domo
Numa genuflexão de aras e de sacrários.

Circundam-lhe o negror dos seus olhos mortuários
As olheiras da cor cristã do cinamomo,
— Cor do fumo que sai de amplos turibulários
Ascendendo para o ar em litúrgico assomo. —

Qualquer que seja a luz que desse olhar irrompa,
Nunca há nele a agudez de uma nota encarnada
Nem o alegre estridor de alaridos de trompa.

Traz— nos sempre à lembrança em fera! desfilada,
O fúnebre esplendor e a lutulenta pompa
De um féretro suntuoso em caminho do Nada.

IV
Dentro do funeral dos seus olhos pressagos,
Enlutados talvez por algum sonho extinto,
Como na estagnação sinistra de dois lagos
Mira-se duplamente a mesma flor do Instinto.

Olhos! vós sois, por certo, o fúnebre recinto.
Onde vêm responsar, aos íntimos estragos,
Os restos de ilusão que dentro d'alma sinto
E que são para mim meus únicos afagos.

Perturba a placidez do meu sonhar de asceta,
O angúrico fulgor dos seus dois negros cílios
Imponderáveis como asas de borboleta.

Os meus mortos ideais em teu olhar, asile-os
Essa, que ele me abriu, cova humilde e discreta,
Onde irei sepultar meus últimos Idílios... 

V
Olha! de par em par, as duas portas abro
Que deitam para o céu por teus olhos de sombra;
Este mundo febril, este mundo macabro,
Já me não horroriza e já me não assombra.

É o céu! da Via-Láctea o estranho candelabro
Fulge. Em tudo há fulgor e há carícias de alfombra;
Luz-me no teu olhar da lua o rosto glabro,
Nada o olhar me perturba ou a mente me ensombra.

Só tristeza, entretanto, em teus olhos me mostras
— Tal se fossem a tumba em que os sonhos empedro
Como pérolas dentro à válvula das ostras; —

E os cílios, doce alpendre à cuja sombra medro,
Como, neles meu ser, todo fechas e prostras
Num círculo feral de casuarina e cedro!...