I
Baixaste sobre mim teu olhar funerário
Numa resignação piedosa de hora extrema,
E as pálpebras caindo em alvas de sudário
Velaram-me de todo a luz clara e suprema,

E tateante no mundo hostil, no mundo vário,
Sem outro guia, sem outra alma que o meu poema
Ilumine e engrinalde e o faça extraordinário,
— Um poema em que minh’alma artista ria ou gema —

Vou para além ouvindo uma música nova
Feita de pás de terra a te cair no peito
Como que para pôr o meu amor à prova

E essa música ouvindo, estranha em seu efeito,
Sinto a luz a morrer e cantarem-lhe à cova
Um funéreo e feral réquiem de luares feito. 

II
Esvaziaram de todo a cova em que dormiste
O sono a que ainda tens a tu’alma sujeita,
E vem dela o som cavo, o monótono e triste,
Vão queixume da terra em lágrimas desfeitas.

Sinto distintamente! Esse queixume existe:
É a saudade da terra aos teus ossos afeita;
É o soluço que vem da cova em que dormiste
O sono a que ainda tens a tu’alma sujeita.

Há por tudo o rumor de um choro desolado;
Cantam chorosamente as árvores e os fossos;
Nossas almas lá vão, unidas lado a lado...

Espalharam à noite os teus brancos destroços
E a noite, na viuvez do teu perfil amado,
Verte funereamente o luar sobre os teus ossos!...

III
Essa cova que aí está, revolvida e vazia,
Encerra ainda o calor que trouxeste do mundo;
Contém toda a saudade e atra melancolia
De um sofrimento obscuro, incurável e fundo.

Apenas, no arvoredo, a rouca sinfonia
Do vento vem chorar em cantochão profundo,
E a noite derramar toda a orvalhada fria
Do pranto em que também a minha face inundo.

Pois é assim a minh’alma, a inconsolada imagem
Dessa cova que aí está ainda exaltante e quente,
Do calor que lhe deste à rápida passagem.

Essa cova a retrata, essa que tem somente
Por supremo consolo, a lúrida ramagem
De um salgueiro a chorar desoladoramente... 

IV
Encerraram-te aqui as cinzas veneradas; 
Esta urna te contém, eternamente, agora,
Nela também existo e as noites e alvoradas
Passem, pouco me importa, ululando lá fora.

Tenho-lhe a adoração das relíquias sagradas,
Pois este relicário onde o meu sonho mora,
Contém, para a minh’alma, as ilusões passadas
E a pulverização do teu perfil de outrora.

É-me grato sentir, pelas noites sem termo,
Toda a apaziguação do meu tormento vário,
Tendo-te junto a mim a aclarar o meu ermo.

Tendo-te junto a mim, sob este alampadário,
E ver com que saudade e com que esforço enfermo,
Morre a luz em redor do teu incinerário... 

V
Ressurgiste afinal nessa glória suprema
Com que hás de eternizar a minha vida e a tua;
Pois por ela é que escrevo e trabalho o meu poema
— O poema em que noss'alma idílica flutua. —

Ressurgiste afinal! Não mais minh'alma trema
Ante o frio glacial dessas noites sem lua,
E esses dias sem sol de uma ansiedade extrema!
Pois vieste e veio a luz que em ti se perpetua.

Desde o dia fatal, em que cedeste à doença,
Desde que te partiste, aqui me tens clamando
Pela volta da luz, pela tua presença...

Aqui me tens tateando, aqui me tens lutando!...
E, ai! não viesses tão cedo! e eu não sei se há quem vença
A um cortejo de treva, uns funerais cantando!...