Nesta cidade vivo há 40 anos há 40 anos vivo esta cidade  a cidade me vive há 40 anos

Sou testemunha cúmplice
objeto
triturado confuso agradecido nostálgico
Onde está, que fugiu, minha Avenida Rio Branco espacial verdolenga baunilhada
eterna como éramos eternos entre duas guerras próximas? O Café Belas-Artes onde está?
E as francesas do bar do Palace Hotel e os olhos de vermute que as despiam no crepúsculo ouro-lilás de 34?

Estou rico de passarelas e vivências
túneis nos morros e cá dentro multiplicam-se
 
rumo a barras-além-da tijuca imperscrutáveis Sou todo uma engenharia em movimento
já não tenho pernas: motor ligado pifado recalcitrante projeto
algarismo sigla perfuração na cidade código

Onde estão Rodrigo, Aníbal e Manuel Otávio, Eneida, Candinho, em que Galeão Gastão espera o jato da Amazônia?
Marco encontros que não se realizam na abolida José Olympio de Ouvidor Ficou, é certo, a espelharia da Colombo mas tenho que tomar café em pé
e só Ary preserva os ritos
da descuidada prosa companheira

Padeiros entregam a domicílio o pão quentinho da alegria
o bonde leva amizades  motorneiras as casas de morar deixam-se morar sem ambição de um dia se tornarem tours d’ivoire entre barracos sórdidos
o rádio espalha no ar Carmem Miranda a Câmara discursa
os maiôs revelam 50%
mas prometem bonificações sucessivas
O Brasil será redimido pelo socialismo utópico Getúlio sorri, baforando o charutão
Rio diverso múltiplo desordenado sob tantos planos
ordenadores desfigurados geniais ferido nas encostas
poluído nas fontes e nas ondas
Rio onde viver é uma promissória sempre renovada  e o sol da praia paga nossas dívidas
de classe média
enquanto multidões penduradas nos trens elétricos desfilam interminavelmente
na indistinção entre vida e morte futebol e carnaval e vão caindo pelo leito da estrada os morituros

Ser um contigo, ó cidade
é prêmio ou pena? Já nem sei se te pranteio ou te agradeço
por este jantar de luz que me ofereces e a ácida  sobremesa  de  problemas que comigo repartes
no incessante fazer-se, desfazer-se
que um Rio novo molda a cada instante e a cada instante mata
um Rio amantiamado há 40 anos.