Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca um beijo recebeu de rosto consumido.

Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz, mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.

Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? a massa de ar em que te converteste e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça uma idéia platônica no espaço?

O desejo perdura em ti que já não és, querida ausente, a perseguir-me, suave? Nunca pensei que os mortos
 
o mesmo ardor tivessem de outros dias e no-lo transmitissem com chupadas de fogo aceso e gelo matizados.

Tua visita ardente me consola. Tua visita ardente me desola. Tua visita, apenas uma esmola.