Só te conheço de retrato, não te conheço de verdade,
mas teu sangue bole em meu sangue e sem saber te vivo em mim
e sem saber vou copiando  tuas imprevistas maneiras, mais do que isso: teu fremente modo de ser, enclausurado
 
entre ferros de conveniência ou aranhóis de burguesia,
vou descobrindo o que me deste sem saber que o davas, na líquida transmissão de taras e dons,
vou te compreendendo, somente de esmerilar em teu retrato
o que a pacatez de um retrato ou o seu vago negativo,
nele implícito e reticente, filtra de um homem; sua face oculta de si mesmo; impulso primitivo; paixão insone
e mais trevosas intenções que jamais assumiram ato
nem mesmo sombra de palavra, mas ficaram dentro de ti cozinhadas em lenha surda.
Acabei descobrindo tudo
que teus papéis não confessaram nem a memória de família transmitiu como fato histórico
e agora te conheço mais
do que a mim próprio me conheço, pois sou teu vaso e transcendência, teu duende mal encarnado.
Refaço os gestos que o retrato não pode ter, aqueles gestos que ficaram em ti à espera
de tardia repetição,
e tão meus eles se tornaram, tão aderentes ao meu ser que suponho tu os copiaste
de mim antes que eu os fizesse, e furtando-me a iniciativa,
meu ladrão, roubaste-me o espírito.